Pelo prazer

Eu quero te descobrir, mas não de repente, como se descobre um novo continente. A terra prometida sempre esteve ali, a espera de uma brava navegante com coragem o bastante para seguir adiante e descer a mares tão distantes , sem medo de encontrar o desconhecido. Somos do signo de terra. Tua terra precisa ser arada e semeada. Tua terra precisa ser habitada por mim.Tua terra precisa de uma nativa confiante para lhe dar o nome. Preciso habitar em ti e te mostrar o meu mundo, meus costumes, mostrar que em mim habita gente.

Quero ser tua morada, tua pousada.  Quero pisar em você de pés descalços devagarinho.  Gosto de sentir o cheiro da terra molhada. A chuva forte que caí, traz enxurrada, mas irriga a plantação. Gosto de sujar meus pés na lama. Eu quero te cobrir de beijos. Eu quero te cobrir com meu corpo. Eu quero me inundar de você.

Eu sou o teu espelho.Olha para mim, olha nos meus olhos. Nós somos o nosso reflexo. Estou tão difusa e tão confusa desde que você voltou. Você chega para refutar as minhas certezas e me encher de dúvidas.

Eu quero ser o seu segredo. Me descobre, mas me guarda dentro de ti, como o teu segredo mais escondido.

É um negócio arriscado, mas eu vou ser tua só pelo prazer de te ter.

Cotidianidade

Hoje enquanto vinha para o trabalho, ouvia música e organizava meus pensamentos, a voz rouca de Cássia Eller dizia que o mundo está ao contrário e ninguém reparou. Eu tenho reparado há tempos e, mesmo não me atingindo diretamente, é impossível permanecer incólume. Toda semana os telejornais e os demais veículos de comunicação jorram uma infinidade de más notícias que você filtra a maioria, mas tem sempre uma que te atinge o estômago e a dor lancinante de outrem te atinge como uma onda.

A vida, assim como a violência está sendo banalizada a olho nu, até mesmo pela imprensa (esta que defendo), não por maldade ou por tratar como normal, mas porque a abundância delas nos faz pensar que nossa sociedade corrompida tem aceitado compassivamente tais notícias que já não ferem, não doem, não comovem. A dor do outro vira piadinha na rede social, o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã, como já dizia Millôr Fernandes.

 

Relatos de uma mente abarrotada

Nem sem mesmo se está abarrotada ou se está, na verdade, cheia de um grande nada. O fato é que minha inspiração escapuliu e não consegui agarrá-la a tempo. Talvez seja culpa de uma rotina sem graça entre indas e vindas do trabalho, faculdade e alguns restaurantes esporádicos(ou nem tanto assim), pode ser também que uma vida insípida gere uma mente inóspita. Vai saber? Ninguém e nada habita nos meus lóbulos a ponto de me incomodar a sentar e escrever alguma coisa, exceto hoje, que acordei cedo por motivos alheios à minha vontade e decidi deleitar-me a uma verborragia despropositada.

A verdade é que a vida real pode ser mais monótona do que se supunha, seguimos os dias no trabalho, na faculdade e no convívio com a família/amigos/amores e pouco nos sobra a fantasiar, deixar a criatividade fluir. Antes, conseguia fazer da vida um substrato de personagens e divagações idílicas, oníricas e deliciosamente impossíveis de acontecer. É que sonhar é uma delícia. A realidade que me consome é crua demais, é engraçada também, mas mais crua que interessante. Vivemos no piloto automático, nas calçadas a pressa de se chegar, nas filas pressa a pagar, prensados nos coletivos a pressa é para sentar, esmagados no trânsito, cada um no seu casulo a pressa pode ainda demorar mais. Ser real cansa.

Despejo palavras na esperança que a criatividade me alcance, mas desisto, antes do fim conto 234 palavras escritas, 2 duas xícaras de café e algumas músicas. Termino aqui porque até a prolixidade me cansa. Insípida estou.

 

251 palavras. (255)

Colecionando estrelas

crianc3a7a-olhando-estrelasEle gostava de constelações

Taurus

Andrômeda

Órion

Aquarius

E tinha suas estrelas preferidas

Aldebaran

Sirius

Pollux

Mas também cultivava pessoas

Julia

Marina

Rafael

Era um menino loiro
e lindo
que um dia cresceu

Carregava o mundo
nas costas
Tinha joelhos fortes
e um coração
honesto

Sonhava com estrelas
e o céu
um dia vai para lá