O piano

Decidimos morar juntos naquela tarde ensolarada enquanto descíamos a Consolação de mãos dadas. Ela, meio saltitante como uma criança feliz disse quase gritando:

 

– Precisamos de um piano! Toda casa precisa de um piano.

Eu sorri porque não sabia o que dizer. Sempre imaginei que para ter uma família, precisava de um casal, dois filhos, um gato, um cachorro e um carro na garagem, mas nunca imaginei um piano. Meu sorriso foi mais de espanto do que de felicidade, mas como dizer não para ela? Eu adorava ceder aos seus encantos quando ela enlaçava meu pescoço num abraço e de pontinha de pé, me beijava. Meu Deus, como eu adorava isso.

O piano chegou uma semana depois juntamente com todas as suas roupas e livros e aquela cômoda de madeira boa que ela herdara de sua avó italiana. Eu me orgulhava da minha sala que era espaçosa para mim. Sala retangular, linda de se ver com meu sofá , uma mesa de jantar e a televisão. Eu nunca gostei de tapetes, gostava de pisar na madeira fria e brilhante da minha sala.

Agora, ao entrar na sala, nada mais chamava atenção do que aquele imenso piano negro, brilhante e excessivamente alto. Todo dia em minha clausura mental, sonhava em jogar aquele imenso elefante escadas a baixo e simular um pequeno acidente. Mas nós agora éramos definitivamente nós, e isso significava que deveríamos manter aquele piano. Não sabíamos tocar nem o dó-re-mi, mas todos os dias ela chegava em casa, me beijava por hábito e logo sentava-se naquele banquinho ridículo, com a coluna ereta, pé no pedal e a tortura começava. Ela não tocava somente mal, como cantava pior ainda, mas era delicioso vê-la feliz, olhos irradiando amor. Eu me rendia e acabávamos fazendo amor ali, aos pés do símbolo-mor de nossa união.

Ela aprendeu a tocar algumas notas com uma revistinha de banca de jornal. Seu amor continuava vivo e nossa família continuava torta sem filhos e sem cachorros, sequer um peixinho de aquário para me fazer feliz. Rendido e largado como o objeto da casa, obsoleto e abstrato comecei a ficar com raiva daquele monstro de calda no meio da minha sala, que antes era grande demais para mim e que agora eu me trombava  em todos os móveis. No piano eu nunca encostei, nem mesmo coloquei os copos de jack em cima dele, nem sei porque eu segurava a imensa vontade que tinha de manchar aquela imitação de madeira. Ela nunca aprendeu a tocar Keane, nem the fray, muito menos Duke Ellington que eu tanto implorava, mas ao contrário, tocava emocionada Fix You e  Someone like you como se fosse de Chopin.

Aos poucos deixamos de nos olhar pela casa. Quando chegava, nem tirava os sapatos, pisava naquele pedal e só saia de lá quando a vizinha chamava a polícia. Eu sorria nessas horas, a minha vizinha, que eu não sabia o nome, deveria ter compaixão de minha alma e talvez desejasse que aquele piano se rebelasse e se demitisse da nossa família. Atingi o auge do meu desespero matrimonial quando ao voltar do banheiro, olhei-a sentada no meu sofá de couro cortando as unhas, aquela que tantas vezes, pintadas de vermelho decoravam cada nota musical contida no meu corpo e que no começo do casamento, me enchiam de orgulho de vê-la derramar sobre o teclado do piano o seus dedos alongados e finos, com as unhas rubras. Aquele contraste me despertavam toda a sexualidade existente em mim e que pena, ela nunca me deixou tirar a sua roupa, e empenar todas aquelas teclas com o peso de seu corpo nu.

Odiava tanto aquele piano que tinha pesadelos recorrentes. Sonhava que o piano era um imenso cachorro que rosnava com aquela boca escancarada de dentes feitos de teclados, seu latido era the one em ritmo de toque polifônico, uma música do Elton John que acabei odiando. Custei a entender o pesadelo. Meu inconsciente sabia que afinal, éramos mesmo uma família e que aquele piano era o cachorro que nunca tivemos.

Resignado, decidi aprender piano para salvar o restinho de dignidade que existia em nosso casamento sem filhos. Eu precisava perder o assombro que aquele bicho representava. Me compadecia dos analfabetos que deveriam sentir medo das palavras que não sabiam manejar, eu tinha pânico daquele teclado branco com parte em preto. E, toda vez que ela saía para trabalhar, eu sentava no banquinho e punha-me a viajar num universo que eu nunca havia experimentado e, espantado, fui percebendo que eu gostava daquilo. Tocava o dia inteiro, Ray Charles, Keane, passando por Tori Amos a Ernesto Cortazar. Nunca toquei Adele, porque aquele prazer de vê-la tocar a partir das 18:30 não podia jamais ser maculado. Eu já nem me importava mais que não tínhamos beijo, nem sexo tórrido aos pés do nosso pobre cachorrinho.

Diversas vezes ela me olhava como se não me conhecesse. Hoje entendo que a função do piano não era o de uma família feliz, mas de uma tortura diária, queria que eu me sentisse incomodado e reagisse de alguma forma, mas não, eu passei a amar e a desejar aquele estranho ser, como membro da família. Ela então me olhava a cada vez que batia com mais forças no teclado, eu apenas piscava os olhos com mais rapidez e por dentro, vinha uma vontade imensa de segurar as suas mãos que machucavam nosso filhote. Nunca deixei me vencer pelo desejo e ensaiava um show para o aniversário de nosso sétimo ano de casamento, dia em que ela, enfim saberia eu eu também amava a nossa pequena família. Imaginava nossos amigos sentados no sofá da minha imensa pequena sala, desfrutando de um bom vinho,  e em estado de graça me ouvindo tocar. Eu, de fraque, coluna ereta, pé no pedal.

Uma manhã de domingo acordei imerso em um mar de silêncio, achei que tinha morrido e ido para o céu dos surdos. Nem um  passo pela casa. Torneiras fechadas, chuveiro desligado. Nem mesmo o tique-taque do relógio. Nada, exceto o som do meu coração sobressaltado. Levantei da cama e chegando na sala, o susto. A sala vazia, levaram meu filho, meu cachorro de estimação. No centro do cômodo apenas um bilhete: Meu amor não aguentou sua indiferença. Levo o piano, o resto das coisas, busco depois.

Sem pensar desci as escadas na esperança de que ela ainda estivesse carregando o piano das costas, nove andares depois encontro meu filho mudo para sempre. Eu, atônito, não sei se pela falta de preparo físico ou se do susto que levo, quase desmaio no saguão do meu prédio. Diante dos olhares aterrorizados dos vizinhos, porteiros jazia meu filho, meu cachorrinho Fritz Dobbert mudo para sempre. E ao centro, triunfante, a vizinha com um taco de beisebol empunhado em uma das mãos, suando e sorrindo como uma louca. Aos seus pés, os dentes que cantavam para mim,  um a um partidos pelo chão.

Naquele dia, naquela mesma sala, agora imensa até para nós dois, choramos abraçados enquanto cantávamos à capela:

“Sometimes it lasts in love

But sometimes it hurts instead”

Naquela casa, nunca mais entraria um outro piano.