Aquele abraço

Aquele abraço na cozinha me enganou direitinho. Sentir teu cheiro, o teu toque, a textura da tua pele me deu um conforto que a minha carência precisava. Eu baixei a guarda de forma perigosa, assumi riscos que achava que você estava preparada para correr comigo.  Em vão? Não diria que sim porque a gente cresce na pancada, no choro e aprende que nem tudo é como a gente quer, aliás, quase nada acontece da forma que a gente deseja, daquele jeitinho que a gente quer, com os moldes que a gente pensava. A gente tem mesmo a péssima mania de criar expectativas demais em cima das pessoas.

Aquele abraço era um sinal que você não voltaria, era a sua deixa para sair da minha vida. Foi apertado, foi quente, quase confortador. Fico pensando aqui, como seria bom se a gente soubesse sempre que abraçaria alguém pela última vez, reteríamos coração com coração por um minuto a mais, apertaríamos nossos tórax como se um fundisse no outro. Seria como aquele abraço da cozinha. Era a sua despedida, só eu que não percebi.

Abril, 2020.

O piano

Decidimos morar juntos naquela tarde ensolarada enquanto descíamos a Consolação de mãos dadas. Ela, meio saltitante como uma criança feliz disse quase gritando:

 

– Precisamos de um piano! Toda casa precisa de um piano.

Eu sorri porque não sabia o que dizer. Sempre imaginei que para ter uma família, precisava de um casal, dois filhos, um gato, um cachorro e um carro na garagem, mas nunca imaginei um piano. Meu sorriso foi mais de espanto do que de felicidade, mas como dizer não para ela? Eu adorava ceder aos seus encantos quando ela enlaçava meu pescoço num abraço e de pontinha de pé, me beijava. Meu Deus, como eu adorava isso.

O piano chegou uma semana depois juntamente com todas as suas roupas e livros e aquela cômoda de madeira boa que ela herdara de sua avó italiana. Eu me orgulhava da minha sala que era espaçosa para mim. Sala retangular, linda de se ver com meu sofá , uma mesa de jantar e a televisão. Eu nunca gostei de tapetes, gostava de pisar na madeira fria e brilhante da minha sala.

Agora, ao entrar na sala, nada mais chamava atenção do que aquele imenso piano negro, brilhante e excessivamente alto. Todo dia em minha clausura mental, sonhava em jogar aquele imenso elefante escadas a baixo e simular um pequeno acidente. Mas nós agora éramos definitivamente nós, e isso significava que deveríamos manter aquele piano. Não sabíamos tocar nem o dó-re-mi, mas todos os dias ela chegava em casa, me beijava por hábito e logo sentava-se naquele banquinho ridículo, com a coluna ereta, pé no pedal e a tortura começava. Ela não tocava somente mal, como cantava pior ainda, mas era delicioso vê-la feliz, olhos irradiando amor. Eu me rendia e acabávamos fazendo amor ali, aos pés do símbolo-mor de nossa união.

Ela aprendeu a tocar algumas notas com uma revistinha de banca de jornal. Seu amor continuava vivo e nossa família continuava torta sem filhos e sem cachorros, sequer um peixinho de aquário para me fazer feliz. Rendido e largado como o objeto da casa, obsoleto e abstrato comecei a ficar com raiva daquele monstro de calda no meio da minha sala, que antes era grande demais para mim e que agora eu me trombava  em todos os móveis. No piano eu nunca encostei, nem mesmo coloquei os copos de jack em cima dele, nem sei porque eu segurava a imensa vontade que tinha de manchar aquela imitação de madeira. Ela nunca aprendeu a tocar Keane, nem the fray, muito menos Duke Ellington que eu tanto implorava, mas ao contrário, tocava emocionada Fix You e  Someone like you como se fosse de Chopin.

Aos poucos deixamos de nos olhar pela casa. Quando chegava, nem tirava os sapatos, pisava naquele pedal e só saia de lá quando a vizinha chamava a polícia. Eu sorria nessas horas, a minha vizinha, que eu não sabia o nome, deveria ter compaixão de minha alma e talvez desejasse que aquele piano se rebelasse e se demitisse da nossa família. Atingi o auge do meu desespero matrimonial quando ao voltar do banheiro, olhei-a sentada no meu sofá de couro cortando as unhas, aquela que tantas vezes, pintadas de vermelho decoravam cada nota musical contida no meu corpo e que no começo do casamento, me enchiam de orgulho de vê-la derramar sobre o teclado do piano o seus dedos alongados e finos, com as unhas rubras. Aquele contraste me despertavam toda a sexualidade existente em mim e que pena, ela nunca me deixou tirar a sua roupa, e empenar todas aquelas teclas com o peso de seu corpo nu.

Odiava tanto aquele piano que tinha pesadelos recorrentes. Sonhava que o piano era um imenso cachorro que rosnava com aquela boca escancarada de dentes feitos de teclados, seu latido era the one em ritmo de toque polifônico, uma música do Elton John que acabei odiando. Custei a entender o pesadelo. Meu inconsciente sabia que afinal, éramos mesmo uma família e que aquele piano era o cachorro que nunca tivemos.

Resignado, decidi aprender piano para salvar o restinho de dignidade que existia em nosso casamento sem filhos. Eu precisava perder o assombro que aquele bicho representava. Me compadecia dos analfabetos que deveriam sentir medo das palavras que não sabiam manejar, eu tinha pânico daquele teclado branco com parte em preto. E, toda vez que ela saía para trabalhar, eu sentava no banquinho e punha-me a viajar num universo que eu nunca havia experimentado e, espantado, fui percebendo que eu gostava daquilo. Tocava o dia inteiro, Ray Charles, Keane, passando por Tori Amos a Ernesto Cortazar. Nunca toquei Adele, porque aquele prazer de vê-la tocar a partir das 18:30 não podia jamais ser maculado. Eu já nem me importava mais que não tínhamos beijo, nem sexo tórrido aos pés do nosso pobre cachorrinho.

Diversas vezes ela me olhava como se não me conhecesse. Hoje entendo que a função do piano não era o de uma família feliz, mas de uma tortura diária, queria que eu me sentisse incomodado e reagisse de alguma forma, mas não, eu passei a amar e a desejar aquele estranho ser, como membro da família. Ela então me olhava a cada vez que batia com mais forças no teclado, eu apenas piscava os olhos com mais rapidez e por dentro, vinha uma vontade imensa de segurar as suas mãos que machucavam nosso filhote. Nunca deixei me vencer pelo desejo e ensaiava um show para o aniversário de nosso sétimo ano de casamento, dia em que ela, enfim saberia eu eu também amava a nossa pequena família. Imaginava nossos amigos sentados no sofá da minha imensa pequena sala, desfrutando de um bom vinho,  e em estado de graça me ouvindo tocar. Eu, de fraque, coluna ereta, pé no pedal.

Uma manhã de domingo acordei imerso em um mar de silêncio, achei que tinha morrido e ido para o céu dos surdos. Nem um  passo pela casa. Torneiras fechadas, chuveiro desligado. Nem mesmo o tique-taque do relógio. Nada, exceto o som do meu coração sobressaltado. Levantei da cama e chegando na sala, o susto. A sala vazia, levaram meu filho, meu cachorro de estimação. No centro do cômodo apenas um bilhete: Meu amor não aguentou sua indiferença. Levo o piano, o resto das coisas, busco depois.

Sem pensar desci as escadas na esperança de que ela ainda estivesse carregando o piano das costas, nove andares depois encontro meu filho mudo para sempre. Eu, atônito, não sei se pela falta de preparo físico ou se do susto que levo, quase desmaio no saguão do meu prédio. Diante dos olhares aterrorizados dos vizinhos, porteiros jazia meu filho, meu cachorrinho Fritz Dobbert mudo para sempre. E ao centro, triunfante, a vizinha com um taco de beisebol empunhado em uma das mãos, suando e sorrindo como uma louca. Aos seus pés, os dentes que cantavam para mim,  um a um partidos pelo chão.

Naquele dia, naquela mesma sala, agora imensa até para nós dois, choramos abraçados enquanto cantávamos à capela:

“Sometimes it lasts in love

But sometimes it hurts instead”

Naquela casa, nunca mais entraria um outro piano.

A felicidade é um balão vermelho

“Se eu pudesse ficar com Fran Fisher, se ela pudesse, de alguma forma, aceitar a mim e meus erros passados, toda a sordidez, a estranheza e a preocupação, então eu me tornaria uma versão melhor de mim mesmo, uma versão tão excelente e exemplar que seria praticamente nova. (…) Seria ousado, mas não irresponsável; popular, mas não bajulador. Leria mais livros e de melhor qualidade, tomaria mais banhos, escovaria os dentes com atenção e cuidado, criaria uma rotina diária de exercícios e a manteria, me portaria de modo diferente, confiante e de cabeça erguida, e me levantaria cedo para que os dias fossem tão repletos quanto possível. Compraria roupas novas, teria um visual mais descolado, cortaria o cabelo, pararia de roubar, seria mais tolerante com meu pai, mais gentil com minha mãe, um melhor irmão para Billie. Comeria salada. Peixe. Água, eu beberia muito mais água , dois litros por dia. (…) Naquela manhã quente e iluminada de verão, uma vida de resoluções de Ano-Novo foi feitas de uma só vez.”*

Ah, o amor! Quando somos invadidos por este sentimento (ou, quando achamos que fomos), sentimos que o mundo das possibilidades se abriu diante de nós e que, a partir de agora, deixaremos para trás todos os nossos vícios. Nossos pecados serão redimidos, vícios curados, hábitos novos. Para um coração enamorado, não existe a dificuldade, num ribombar do coração tudo se torna crível, plausível e verdadeiro.

(…) –

– Ainda está bêbado?Você está bem? – Perguntou meu pai.

– O quê?

– Não. Só… feliz. Isso é permitido, não é? Eu me perguntei, e torci para que, se a tristeza fosse contagiosa, talvez a alegria também pudesse ser.

– Isso é estranho.

– Não se preocupe – falei. – Não vai durar.*

Este é um diálogo honesto de pessoas que não estão compartilhando da mesma “vibe”. Às vezes, a alegria e a felicidade são só uma descarga de adrenalina. Nos sentimos melhores, mais bonitos, eufóricos, infalíveis, invencíveis, inflados e capazes das melhores coisas. Exalamos virtudes e nos convencemos que somos nossa melhor versão. Mas basta que nos deparemos com alguém fora dessa atmosfera mágica e inebriante da felicidade para que tudo se dissipe. É como se estivéssemos dentro de um balão de gás e o seu conteúdo nos entorpecesse, e de repente, ele se estoura e aos poucos seu efeito se dissipasse em contato com outro ar, outra temperatura. E então, lentamente retornássemos ao estado natural das coisas A felicidade, uma poderosa, mas curta, droga.

 

*Trechos retirados do livro Uma dor tão doce, de David Nicholls

Segurança

Naquela noite ela sentiu intensa solidão. A cama parecera maior, o frio intenso, embora só ela sentisse. Fazia 30 graus na capital carioca, mas o frio que ela sentia vinha de dentro, como se congelasse do centro para as extremidades de seu corpo. Levantou da cama e olhou pela janela, pelos muros baixos dava para olhar o jardim escuro e calmo, a casa ao lado estava silenciosa, dormia ali seus sonhos abandonados, vida que quis e não quis. Sentiu os olhos se inundarem de uma tristeza desconhecida, a dor que atravessara seus órgãos era diferente, era uma dor de perda, dor de abandono.

Desceu as escadas, seminua, atravessou o pequeno portão que jazia intacto desde que ela o abandonara fazia já alguns meses, viu que ele não mudou as fechaduras e sentiu que aquilo ali era um código, uma senha de que nem tudo estava perdido. Será? Ousada verificou que a porta da cozinha permanecia destrancada.  – Era um carinho que eles mantinham, um acordo tácito de quando eles mudaram para aquela casa, a porta da cozinha ficaria destrancada, assim como o portãozinho, para caso sua mãe precisasse, poderia entrar na casa deles sem qualquer problema. Era um cuidado dele que ela somente agora sentia a importância, o peso do gesto. –  E ela entrou na casa que foi dela, onde ele poderia estar acompanhado naquele momento. Ela se sentia estranha, desamparada, não raciocinava direito. Doía-lhe o peito, a respiração rarefeita, frio, espasmos pelo corpo inteiro e sem pensar adentrou seu quarto, onde ali dormira por diversas noites embebidas de beijos, vinhos e sexo.

O quarto estava calmo com cheiros que ela conhecia, com tudo que ela nem sabia que ainda gostava. Deitou no lado que gostava na cama, o lado que sempre fora dela. Se ele a sentiu naquele momento, não disse nada e sequer se moveu. Ela agora sentia seus músculos relaxarem, o coração voltar ao compasso da segurança, ela aninhou-se naqueles lençóis e sentindo o calor que emanava do corpo dele conseguiu dormir. Um sono reparador, sem sonhos e sem medo. Ela se sentiu em casa novamente. Ali todas as suas dores e medos não existiam.

Acordou estranhamente leve e feliz. As paredes daquele quarto agora vazio a abraçavam como um pai amoroso. Desceu as escadas e constatou que não havia mesmo ninguém em casa, mas na mesa da cozinha havia mais uma xícara para o café da manhã.

Blindness

Um Bem-te-vi entrou, sem querer, na minha sala. Talvez tenha sido atraído pela vidraça que refletia a luz do dia. Perdido dentro de um quadrado estranho e com temperatura diferente, num primeiro momento ele pensasse em explorar o ambiente, talvez encontrar alguma coisa interessante, um alimento novo, quem sabe, alguma companhia? Tão logo explorado, o espaço se tornou comum e perigoso, com várias armadilhas, ele quis ir embora. Tomado pelo desespero não encontrava a saída, e por mais que eu movesse os móveis, abrisse as cortinas e tentava fazê-lo enxergar a saída, ele não conseguia ir embora. Por fim, cansado de lutar contra o que ele considerava impossível, deslizou pelo chão e em um fôlego só, como se mais calmo, pudesse enxergar melhor, alçou voo em direção à janela.

Às vezes somos como o Bem-te-vi. Entramos em situações, lugares, vidas e histórias que, à primeira vista, nos parecem muito atraentes, mas depois com um olhar mais apurado descobrimos que estamos dentro de uma armadilha, uma grande emboscada adornada de coisas bonitas que nos faz ficar. Nossos sentidos ficam embotados, como se sob uma névoa enxergássemos as coisas de forma distorcida e por mais que a janela da verdade esteja escancarada à nossa frente, não vemos, temos medo de nos aproximar, medo de que ela seja somente uma ilusão de ótica que o nosso medo cria. A gente se debate, chora, insiste, e continua se machucando tentando encontrar uma saída. Na verdade, a gente sabe onde fica a saída, lá a corrente de ar é diferente, parece mais etéreo, porém não temos coragem de chegar perto. Algumas pessoas fazem como o Bem-te-vi, desce ao chão, respira, toma fôlego, tenta racionalizar e consegue sair. Outras precisarão ser ajudadas, algumas sucumbirão. A janela está ali escancarada, mais um passo e  você estará livre. Mas você quer ser livre?