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Oi,

Olha, tá tudo bem aqui e tá tudo bem que a tua vida seguiu sem a minha, espero que siga sempre assim, feliz e sorrindo. Alguém aqui precisa estar bem e eu dou a minha vez para você.

Ontem li um trecho de um livro cuja personagem temia pela morte por não saber o que encontrará do outro lado e durante o diálogo, Iuri falou uma coisa que me deixou pensando, transcrevo: “cada indivíduo é o que respirou, o que o nutriu, o que deleitou a sua consciência ao longo de toda a vida”. Peço Licença a Pasternak em acrescentar que a memória também é o que você sentiu, se permitiu viver, sonhar, construir e por quê não, tudo aquilo que deu errado, que te fez sofrer, que te fez achar que morreria de tanta dor? A gente é um amontoado de sentimentos que mudam conforme a gente vai ajustando o foco, a perspectiva e vai tentando se adaptar com as escolhas.

A vida é empírica e nada nos ensinam em livros, a gente precisa saber (e se perdoar por isso) que vai errar tentando acertar, que vai errar sem perceber que isso vai ferir de forma irreversível o outro e que isso nem sempre nos transforma em monstros insensíveis que nunca terão conserto. Mas a gente vai acertar tanto, mas tanto que vai valer a pena ter chorado  pelo caminho. O Doutor Jivago deve ter pensado nisso também. Ele devia saber que a gente é aquilo que faz, a gente é aquilo que nos motiva a levantar da cama, a saber que em algum lugar no mundo há alguém que nos é importante e tão caro como o ar que preenche cada pedacinho do pulmão e se transforma em energia, vida, se transforma em força.

E quando isso tudo acaba? E quando você mexe no ângulo e tudo desfoca? o borrão que fica é pesado. A gente não encontra meios de consertar e cai nas armadilhas dolorosas que a consciência te traz. Mas tudo isso é você. Tudo se transforma em memória e eu por muito tempo briguei com isso, não entendia porque as pessoas simplesmente eliminam as outras de suas vidas como se fosse uma peça de roupa que não serve mais.  Não entendo ainda muitas coisas, talvez por ainda sentir tudo tão vivamente dentro de mim como se um ano não tivesse passado.

E Doutor Jivago completa o seu diálogo dizendo: “Em outros você esteve, em outros você será”. É isso. Eu só estive na tua vida e eu sei que teu foco mudou, você se deslocou para o lado e viu uma estrada melhor, isso não é nenhum pecado. Pecado é ficar sem querer, é olhar sem ver, é viver sem sentir. Tá tudo bem assim, para algumas pessoas a ressaca custa a passar, o remédio demora a fazer efeito, a droga bate mais forte. Algumas pessoas sentem mais mesmo, demoram mais em seguir com as coisas. Eu acho que você me conhece pelo menos um pouco e entende que, por enquanto, ainda não tá tudo bem pra mim, mas um dia pode ficar.

Quando você puder, diga oi, não será como antes, mas será melhor que nada. Você, certa vez, ao falar do filme “Me chame pelo seu nome”, disse que a gente pode viver (e identificar) o amor uma vez na vida e isso nunca mais se repetir, você estava certa quanto a isto, acabei encontrando na internet um trecho da conversa entre Elio e seu pai: “Quando menos esperamos, a Natureza tem maneiras inesperadas de localizar nosso ponto mais fraco. Lembre-se de uma coisa: estou aqui. Neste exato momento você talvez não esteja querendo sentir nada. Talvez você nunca quisesse ter sentido nada. E talvez não seja a mim que você vai querer falar dessas coisas um dia. Mas é óbvio que você sentiu alguma coisa, sim.

Vocês tiveram uma amizade linda. Talvez mais que uma amizade. E eu invejo você. A maioria dos pais, se estivesse em meu lugar, torceria para isso tudo acabar, rezaria para seu filho acabar se endireitando. Mas eu não sou um pai assim. Em seu lugar, eu diria: se há uma dor, cuide dela com carinho. E, se há uma chama, não a apague. Não seja brutal com ela. Arrancamos tanta coisa de nós mesmos para nos curarmos mais rapidamente das coisas que aos 30 anos já estamos falidos e temos menos a oferecer cada vez que começamos com uma pessoa nova. Mas insensibilizar-se para evitar qualquer dor – que desperdício!“.

Você foi o meu Oliver, obrigada.