Cotidianidade

Hoje enquanto vinha para o trabalho, ouvia música e organizava meus pensamentos, a voz rouca de Cássia Eller dizia que o mundo está ao contrário e ninguém reparou. Eu tenho reparado há tempos e, mesmo não me atingindo diretamente, é impossível permanecer incólume. Toda semana os telejornais e os demais veículos de comunicação jorram uma infinidade de más notícias que você filtra a maioria, mas tem sempre uma que te atinge o estômago e a dor lancinante de outrem te atinge como uma onda.

A vida, assim como a violência está sendo banalizada a olho nu, até mesmo pela imprensa (esta que defendo), não por maldade ou por tratar como normal, mas porque a abundância delas nos faz pensar que nossa sociedade corrompida tem aceitado compassivamente tais notícias que já não ferem, não doem, não comovem. A dor do outro vira piadinha na rede social, o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã, como já dizia Millôr Fernandes.

 

Anúncios

Relatos de uma mente abarrotada

Nem sem mesmo se está abarrotada ou se está, na verdade, cheia de um grande nada. O fato é que minha inspiração escapuliu e não consegui agarrá-la a tempo. Talvez seja culpa de uma rotina sem graça entre indas e vindas do trabalho, faculdade e alguns restaurantes esporádicos(ou nem tanto assim), pode ser também que uma vida insípida gere uma mente inóspita. Vai saber? Ninguém e nada habita nos meus lóbulos a ponto de me incomodar a sentar e escrever alguma coisa, exceto hoje, que acordei cedo por motivos alheios à minha vontade e decidi deleitar-me a uma verborragia despropositada.

A verdade é que a vida real pode ser mais monótona do que se supunha, seguimos os dias no trabalho, na faculdade e no convívio com a família/amigos/amores e pouco nos sobra a fantasiar, deixar a criatividade fluir. Antes, conseguia fazer da vida um substrato de personagens e divagações idílicas, oníricas e deliciosamente impossíveis de acontecer. É que sonhar é uma delícia. A realidade que me consome é crua demais, é engraçada também, mas mais crua que interessante. Vivemos no piloto automático, nas calçadas a pressa de se chegar, nas filas pressa a pagar, prensados nos coletivos a pressa é para sentar, esmagados no trânsito, cada um no seu casulo a pressa pode ainda demorar mais. Ser real cansa.

Despejo palavras na esperança que a criatividade me alcance, mas desisto, antes do fim conto 234 palavras escritas, 2 duas xícaras de café e algumas músicas. Termino aqui porque até a prolixidade me cansa. Insípida estou.

 

251 palavras. (255)

Colecionando estrelas

crianc3a7a-olhando-estrelasEle gostava de constelações

Taurus

Andrômeda

Órion

Aquarius

E tinha suas estrelas preferidas

Aldebaran

Sirius

Pollux

Mas também cultivava pessoas

Julia

Marina

Rafael

Era um menino loiro
e lindo
que um dia cresceu

Carregava o mundo
nas costas
Tinha joelhos fortes
e um coração
honesto

Sonhava com estrelas
e o céu
um dia vai para lá

Ao som que vibra

musica-para-o-coracaoFerve em mim todas as sensações que me percorrem neste momento. Me atormenta até o último gole de água fria e do café quente. Noite insone de questionamento, mas também, de música. Pois sem sua presença, não há vida em mim. Só ela me resgata, me consola, socorre.

A xícara, que vai em uma das mãos, esfria enquanto ajeito o fone. O objetivo maior não é prende-lo aos ouvidos, mas sim, de bloquear qualquer possível sinal de vida lá fora. Não há nada ecoando que não seja o embalo de suas notas. Você insiste de maneira irredutível – “enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora e vou na valsa”.

Tocante, forte. Você entra em mim com sua pouca doçura, e eu te respondo afirmando que, se tudo isso não é apenas se servir de uma licença poética ou de uma figura muito intensa de linguagem, saiba que você não conseguiu me pôr em pânico. Me mantenho tranquila e sigo confiante que, neste empasse, me sairei bem. Afinal, já comprei os sapatos adequados. Nessa vida , tô aprendendo bem a dançar.

E já que bate aqui de novo, senhor. Tenho que dizer-te! O mundo não espera de nós apenas um pouco de paciência. Ele espera muito. Ele esgota os nossos limites. Ele dissipa nosso controle. Não almejo tornar-me como uma paciente limítrofe, mas acho que desta vez, o senhor se equivocou. Que pena! Pois saiba que, quase como um sábio ou um salvador, já me tiraste do chão, me colocando muitas vezes de pé ao som de sua paciência.

Desculpa, mas é que dentro deste rompante de decisões, sigo me perguntando com muita firmeza do que devo ter medo ou temer neste momento. Sob que perspectiva de tempo espaço preciso me dedicar à espera? Nada me prende, e como bem colocado em sua canção, a vida não para.

É, e assim vou me entregando e me embalando em sua canção. Mas ao contrário de sua resiliência, não consigo me servir deste pouco de paciência. E eu finjo tê-la? “E quem quer saber”. Sim, sempre tive intuição, mas tô quebrando todas as minhas promessas. Que estranho. Ouço daqui, você, quase como um conselho, um sussurro em meus ouvidos. Senhorita – esqueça a paciência! Acato como uma ordem. Enfim, tá gritante. “Quem vai virar o jogo e transformar a perda”. Isso me aperta.

Preciso mudar de estação, ou ao menos, de canção. Me deixe passar a faixa, pois não me atrai esta “saudade de um tempo que ainda não passou” Não tô conseguindo enxergar a recompensa. Tá difícil uma lógica, uma paz na solidão. Mas o caos, tá impregnando. O universo? Meu fascínio. “Ele é meu real e mais puro interesse”. Traga “quem me interessa”, pois quando eu olhar pro lado, são delas que eu quero estar cercada. Cumpra todo o seu lado imperativo, e anule sua primeira canção.

Te rogo – acalma a minha pressa. Me dá sua palavra? Ta difícil encontrar toda esta paz na solidão. Aquele retrato tá me machucando. Por fim, desligo-me de você, e sigo fazendo uma lista de músicas que pretendo nunca mais ouvi-las.

“Daqui desse momento

Do meu olhar pra fora

O mundo é só miragem

A sombra do futuro

A sobra do passado

Assombram a paisagem”

Me traz o teu sossego!

Leituras de 2016

livros1Apesar de 2016 ter ficado aquém do que eu esperava no quesito leitura, as leituras que fiz foram excelentes. Foi um ano que me voltei aos escritores nacionais, fruto de uma parceria literária que firmei com alguns (excelentes) escritores que me cederam suas obras para que eu pudesse resenhá-las aqui: Do prólogo ao epílogo. A experiência das parcerias literárias foi muito positiva principalmente pela valorização do autor “de casa” que às vezes é um pouco negligenciado pelos grandes lançamentos que as editoras promovem e nos saltam aos olhos como se fosse uma guloseima há muito cobiçada. E agora espero que em 2017 eu tenha novas surpresas nacionais.

A minha lista de 2016 ficou assim:

1 – Guantánamo Boy – Anna Perera

2 – Por que eu? – Sinelia Peixoto ( parceria literária)

3 – Despertar e outros poemas – Diego Demetrius Fontenele ( parceria literária)

4 – À sombra do meu irmão – Uwe Timm

5 – O homem e seus demônios – Fernando Risch (parceria literária)

6 – Como falar com as garotas nas festas – Neil Gaiman

7 – Quantas vidas valem uma vida – Carlos Santos (parceria literária)

8 – É para glorificar de pé – Lodir Negrini

9 – Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

10 – Johnny Bleas 1 – João Gabriel Brenne (parceria literária)

11 – A costureira de Khair Khana – Gayle Tzemach Lemmon

12 – Com amor, Anthony – Lisa Genova

13 – Eu sou o último judeu – Chil Rajchman

14 – Simplesmente Dan – Isie Fernandes (parceria literária)

15 – A ajuda veio do céu – Lorrayne Saraiva Lima (parceria literária)

16 – Águas turvas – Helder Caldeira

17 – Sempre foi você – Carrie Elks

18 – O resgate de Maria Metálica – Lorena Rocque (parceria literária)

19 – Tudo aquilo que nunca foi dito – Marc Levy

20 – No fio da vida – Paulo Azevedo (parceria literária)

21 – Exílio – Lya Luft

22 – A via crucis do corpo – Clarice Lispector

23 – Mariposa – Patrícia Baikal (parceria literária)

24 – Elos – Asas de vidro – Isie Fernandes (parceria literária)

25 – Por aí – Renan Alvarenga (parceria literária)

26 – Tempo é dinheiro – Lionel Shriver

27 – Pensar é transgredir – Lya Luft

28 – Prometo falhar – Pedro Chagas Freitas

29 – A menina que não sabia ler – John Harding

30 – O Primeiro Vampiro – Ewerton Carvalho

31 – Grande irmão – Lionel Shriver