Ao som que vibra

musica-para-o-coracaoFerve em mim todas as sensações que me percorrem neste momento. Me atormenta até o último gole de água fria e do café quente. Noite insone de questionamento, mas também, de música. Pois sem sua presença, não há vida em mim. Só ela me resgata, me consola, socorre.

A xícara, que vai em uma das mãos, esfria enquanto ajeito o fone. O objetivo maior não é prende-lo aos ouvidos, mas sim, de bloquear qualquer possível sinal de vida lá fora. Não há nada ecoando que não seja o embalo de suas notas. Você insiste de maneira irredutível – “enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora e vou na valsa”.

Tocante, forte. Você entra em mim com sua pouca doçura, e eu te respondo afirmando que, se tudo isso não é apenas se servir de uma licença poética ou de uma figura muito intensa de linguagem, saiba que você não conseguiu me pôr em pânico. Me mantenho tranquila e sigo confiante que, neste empasse, me sairei bem. Afinal, já comprei os sapatos adequados. Nessa vida , tô aprendendo bem a dançar.

E já que bate aqui de novo, senhor. Tenho que dizer-te! O mundo não espera de nós apenas um pouco de paciência. Ele espera muito. Ele esgota os nossos limites. Ele dissipa nosso controle. Não almejo tornar-me como uma paciente limítrofe, mas acho que desta vez, o senhor se equivocou. Que pena! Pois saiba que, quase como um sábio ou um salvador, já me tiraste do chão, me colocando muitas vezes de pé ao som de sua paciência.

Desculpa, mas é que dentro deste rompante de decisões, sigo me perguntando com muita firmeza do que devo ter medo ou temer neste momento. Sob que perspectiva de tempo espaço preciso me dedicar à espera? Nada me prende, e como bem colocado em sua canção, a vida não para.

É, e assim vou me entregando e me embalando em sua canção. Mas ao contrário de sua resiliência, não consigo me servir deste pouco de paciência. E eu finjo tê-la? “E quem quer saber”. Sim, sempre tive intuição, mas tô quebrando todas as minhas promessas. Que estranho. Ouço daqui, você, quase como um conselho, um sussurro em meus ouvidos. Senhorita – esqueça a paciência! Acato como uma ordem. Enfim, tá gritante. “Quem vai virar o jogo e transformar a perda”. Isso me aperta.

Preciso mudar de estação, ou ao menos, de canção. Me deixe passar a faixa, pois não me atrai esta “saudade de um tempo que ainda não passou” Não tô conseguindo enxergar a recompensa. Tá difícil uma lógica, uma paz na solidão. Mas o caos, tá impregnando. O universo? Meu fascínio. “Ele é meu real e mais puro interesse”. Traga “quem me interessa”, pois quando eu olhar pro lado, são delas que eu quero estar cercada. Cumpra todo o seu lado imperativo, e anule sua primeira canção.

Te rogo – acalma a minha pressa. Me dá sua palavra? Ta difícil encontrar toda esta paz na solidão. Aquele retrato tá me machucando. Por fim, desligo-me de você, e sigo fazendo uma lista de músicas que pretendo nunca mais ouvi-las.

“Daqui desse momento

Do meu olhar pra fora

O mundo é só miragem

A sombra do futuro

A sobra do passado

Assombram a paisagem”

Me traz o teu sossego!

Leituras de 2016

livros1Apesar de 2016 ter ficado aquém do que eu esperava no quesito leitura, as leituras que fiz foram excelentes. Foi um ano que me voltei aos escritores nacionais, fruto de uma parceria literária que firmei com alguns (excelentes) escritores que me cederam suas obras para que eu pudesse resenhá-las aqui: Do prólogo ao epílogo. A experiência das parcerias literárias foi muito positiva principalmente pela valorização do autor “de casa” que às vezes é um pouco negligenciado pelos grandes lançamentos que as editoras promovem e nos saltam aos olhos como se fosse uma guloseima há muito cobiçada. E agora espero que em 2017 eu tenha novas surpresas nacionais.

A minha lista de 2016 ficou assim:

1 – Guantánamo Boy – Anna Perera

2 – Por que eu? – Sinelia Peixoto ( parceria literária)

3 – Despertar e outros poemas – Diego Demetrius Fontenele ( parceria literária)

4 – À sombra do meu irmão – Uwe Timm

5 – O homem e seus demônios – Fernando Risch (parceria literária)

6 – Como falar com as garotas nas festas – Neil Gaiman

7 – Quantas vidas valem uma vida – Carlos Santos (parceria literária)

8 – É para glorificar de pé – Lodir Negrini

9 – Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

10 – Johnny Bleas 1 – João Gabriel Brenne (parceria literária)

11 – A costureira de Khair Khana – Gayle Tzemach Lemmon

12 – Com amor, Anthony – Lisa Genova

13 – Eu sou o último judeu – Chil Rajchman

14 – Simplesmente Dan – Isie Fernandes (parceria literária)

15 – A ajuda veio do céu – Lorrayne Saraiva Lima (parceria literária)

16 – Águas turvas – Helder Caldeira

17 – Sempre foi você – Carrie Elks

18 – O resgate de Maria Metálica – Lorena Rocque (parceria literária)

19 – Tudo aquilo que nunca foi dito – Marc Levy

20 – No fio da vida – Paulo Azevedo (parceria literária)

21 – Exílio – Lya Luft

22 – A via crucis do corpo – Clarice Lispector

23 – Mariposa – Patrícia Baikal (parceria literária)

24 – Elos – Asas de vidro – Isie Fernandes (parceria literária)

25 – Por aí – Renan Alvarenga (parceria literária)

26 – Tempo é dinheiro – Lionel Shriver

27 – Pensar é transgredir – Lya Luft

28 – Prometo falhar – Pedro Chagas Freitas

29 – A menina que não sabia ler – John Harding

30 – O Primeiro Vampiro – Ewerton Carvalho

31 – Grande irmão – Lionel Shriver

MACHADO, SEMPRE MACHADO

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”

Humor ou profundo conhecimento da alma humana?

Quem sabe se nós nos puséssemos na posição de Brás Cubas que, já do outro lado, não precisava de máscara e se abria às verdades do seu íntimo, nós nos permitíssemos estabelecer uma relação mais honesta com a verdade e com isso dar o devido valor à coerência entre o agir e o falar.

o sexo oprimido

Estava lendo um artigo de uma revista em que um historiador especialista em conflitos mundiais, depois de publicar livros sobre a guerra, acabou enveredando pelo território altamente minado da chamada guerra dos sexos.

Estudando a opressão que as mulheres sofriam por parte deles, o homem acabou descobrindo o contrário. Por exemplo: antes as mulheres não podiam trabalhar, mas hoje podem optar, enquanto homem nunca teve escolha. Ou trabalha e sustenta a família (mesmo que a mulher possa fazer isso sozinha), ou leva fama de vagabundo, parasita.

As grandes inovações e invenções do mundo devem-se na maior parte aos homens porque mulheres seriam menos criativas do que eles. As realizações femininas vieram por
imitação (ou pelo feio impulso da inveja). O feminismo não apenas concedeu direitos às mulheres, mas deu-lhes ainda mais privilégios do que tinham antes, quando eram sustentadas pelos seus homens, que se esfalfavam para lhes dar uma vida fácil e segura.
Mulheres (e crianças) não são as grandes vítimas da guerra: embora elas sofram, quem afinal luta e morre são os homens. Mais um privilégio feminino.
E quanto ao poder de mando e poder econômico? A testosterona torna os homens mais agressivos e competitivos, portanto líderes naturais. Além disso, permanecem mais no
trabalho, enquanto as mulheres frequentemente saem do mercado para ter filhos e cuidar deles.

A questão diabólica de que mulheres em certos países são submetidas à extirpação do clitóris para não terem prazer bate no “mito do prazer clitoridiano”. Freud afirmava
que mulher que só se diverte por essa via é sexualmente infantilizada. Mas Freud também confessou não ter ideia do que afinal queriam as mulheres.

Por toda parte surgem movimentos para melhorar a situação dos homens. Seria o ainda não oficializado men’s lib, tempos atrás considerado piada. Quem sabe estamos encarando esse tema com os óculos distorcidos do preconceito? Ou a guerra dos sexos é um grande mal-entendido, um desperdício de emoções, um tiro no próprio pé de cada lado… ou uma piada de mau gosto, em alguns casos macabra.