A felicidade é um balão vermelho

“Se eu pudesse ficar com Fran Fisher, se ela pudesse, de alguma forma, aceitar a mim e meus erros passados, toda a sordidez, a estranheza e a preocupação, então eu me tornaria uma versão melhor de mim mesmo, uma versão tão excelente e exemplar que seria praticamente nova. (…) Seria ousado, mas não irresponsável; popular, mas não bajulador. Leria mais livros e de melhor qualidade, tomaria mais banhos, escovaria os dentes com atenção e cuidado, criaria uma rotina diária de exercícios e a manteria, me portaria de modo diferente, confiante e de cabeça erguida, e me levantaria cedo para que os dias fossem tão repletos quanto possível. Compraria roupas novas, teria um visual mais descolado, cortaria o cabelo, pararia de roubar, seria mais tolerante com meu pai, mais gentil com minha mãe, um melhor irmão para Billie. Comeria salada. Peixe. Água, eu beberia muito mais água , dois litros por dia. (…) Naquela manhã quente e iluminada de verão, uma vida de resoluções de Ano-Novo foi feitas de uma só vez.”*

Ah, o amor! Quando somos invadidos por este sentimento (ou, quando achamos que fomos), sentimos que o mundo das possibilidades se abriu diante de nós e que, a partir de agora, deixaremos para trás todos os nossos vícios. Nossos pecados serão redimidos, vícios curados, hábitos novos. Para um coração enamorado, não existe a dificuldade, num ribombar do coração tudo se torna crível, plausível e verdadeiro.

(…) –

– Ainda está bêbado?Você está bem? – Perguntou meu pai.

– O quê?

– Não. Só… feliz. Isso é permitido, não é? Eu me perguntei, e torci para que, se a tristeza fosse contagiosa, talvez a alegria também pudesse ser.

– Isso é estranho.

– Não se preocupe – falei. – Não vai durar.*

Este é um diálogo honesto de pessoas que não estão compartilhando da mesma “vibe”. Às vezes, a alegria e a felicidade são só uma descarga de adrenalina. Nos sentimos melhores, mais bonitos, eufóricos, infalíveis, invencíveis, inflados e capazes das melhores coisas. Exalamos virtudes e nos convencemos que somos nossa melhor versão. Mas basta que nos deparemos com alguém fora dessa atmosfera mágica e inebriante da felicidade para que tudo se dissipe. É como se estivéssemos dentro de um balão de gás e o seu conteúdo nos entorpecesse, e de repente, ele se estoura e aos poucos seu efeito se dissipasse em contato com outro ar, outra temperatura. E então, lentamente retornássemos ao estado natural das coisas A felicidade, uma poderosa, mas curta, droga.

 

*Trechos retirados do livro Uma dor tão doce, de David Nicholls

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