Segurança

Naquela noite ela sentiu intensa solidão. A cama parecera maior, o frio intenso, embora só ela sentisse. Fazia 30 graus na capital carioca, mas o frio que ela sentia vinha de dentro, como se congelasse do centro para as extremidades de seu corpo. Levantou da cama e olhou pela janela, pelos muros baixos dava para olhar o jardim escuro e calmo, a casa ao lado estava silenciosa, dormia ali seus sonhos abandonados, vida que quis e não quis. Sentiu os olhos se inundarem de uma tristeza desconhecida, a dor que atravessara seus órgãos era diferente, era uma dor de perda, dor de abandono.

Desceu as escadas, seminua, atravessou o pequeno portão que jazia intacto desde que ela o abandonara fazia já alguns meses, viu que ele não mudou as fechaduras e sentiu que aquilo ali era um código, uma senha de que nem tudo estava perdido. Será? Ousada verificou que a porta da cozinha permanecia destrancada.  – Era um carinho que eles mantinham, um acordo tácito de quando eles mudaram para aquela casa, a porta da cozinha ficaria destrancada, assim como o portãozinho, para caso sua mãe precisasse, poderia entrar na casa deles sem qualquer problema. Era um cuidado dele que ela somente agora sentia a importância, o peso do gesto. –  E ela entrou na casa que foi dela, onde ele poderia estar acompanhado naquele momento. Ela se sentia estranha, desamparada, não raciocinava direito. Doía-lhe o peito, a respiração rarefeita, frio, espasmos pelo corpo inteiro e sem pensar adentrou seu quarto, onde ali dormira por diversas noites embebidas de beijos, vinhos e sexo.

O quarto estava calmo com cheiros que ela conhecia, com tudo que ela nem sabia que ainda gostava. Deitou no lado que gostava na cama, o lado que sempre fora dela. Se ele a sentiu naquele momento, não disse nada e sequer se moveu. Ela agora sentia seus músculos relaxarem, o coração voltar ao compasso da segurança, ela aninhou-se naqueles lençóis e sentindo o calor que emanava do corpo dele conseguiu dormir. Um sono reparador, sem sonhos e sem medo. Ela se sentiu em casa novamente. Ali todas as suas dores e medos não existiam.

Acordou estranhamente leve e feliz. As paredes daquele quarto agora vazio a abraçavam como um pai amoroso. Desceu as escadas e constatou que não havia mesmo ninguém em casa, mas na mesa da cozinha havia mais uma xícara para o café da manhã.

Vai, agora é a sua vez de falar

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