Fim – Fernanda Torres

480e60397ddcef81660a056ca37272d2Li  Fim,  da atriz Fernanda Torres em um dia. Livro pequeno e bem gostoso de ler, embora a sua temática não seja tão agradável assim. Fernanda parte das derradeiras horas de cinco personagens para narrar suas histórias, dando ênfase à que viveram juntos, e tratando-as com a devida humanidade, mas também com muito humor. Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro conheceram-se na praia, foram companheiros de farra no Rio de Janeiro dos gloriosos e tumultuados anos 1960, em festas regadas a álcool, sexo e drogas, tudo sempre em generosas doses. Na época, os então trintões curtiam os anos do desbunde feito adolescentes desmiolados, como se para eles a vida fosse terminar ali, no dobrar da esquina. E isso podia muito bem ter acontecido, pois não era raro o motorista sair dirigindo depois de ter cheirado e bebido todas. Casaram, traíram, foram traídos, separaram e, depois de terem aprontado o que podiam, acabaram por se afastar. Álvaro e Ribeiro se reencontram em Copacabana, por acaso, um dia antes da morte de um deles, e combinam de repetir esse encontro sem saber que o destino não vai permitir que isso aconteça.

Fim compõe-se de cinco capítulos e um epílogo. Cada capítulo é intitulado com o nome de um dos personagens, sob o qual vêm informadas também as respectivas datas de nascimento e morte. Dois detalhes curiosos: Ribeiro morre no mês em que o livro foi lançado, novembro de 2013, enquanto Álvaro tem o óbito projetado para uma data futura, no próximo ano.

Os capítulos começam invariavelmente com uma narrativa em primeira pessoa em que o protagonista, com a morte lhe batendo à porta, relembra fatos de sua vida, as eventuais alegrias mas sobretudo as muitas frustrações. O narrador muda em seguida para a neutralidade de uma terceira pessoa e vai alternando o foco narrativo entre os vários personagens secundários da trama: esposas, filhos, amantes. O epílogo remete a uma cena descrita no primeiro capítulo, fechando o círculo com um episódio que parecia menor a ponto de ser esquecido, e que só no fim vai revelar sua real importância na trama. De resto, a passagem é emblemática da construção do próprio romance. A estrutura lembra uma rapsódia: fragmentos da história principal, contados através de diferentes vozes e ângulos, vão sendo apresentados como peças de um quebra-cabeça. Essa opção demanda uma habilidade incomum do ficcionista para não confundir o leitor nem dispersar sua atenção, e Fernanda surpreende ao exercê-la com extrema competência.

Os cinco personagens são tipos absolutamente comuns que mais compartilham afinidades do que colecionam divergências (embora elas não sejam em nada desprezíveis), e não foi por outro motivo que se aproximaram no passado para viver juntos suas aventuras mais marcantes, essas que vão recordar pelo resto da vida e, muito especialmente, em seu final. Nem todos chegam a envelhecer — Ciro, o Casanova do grupo, e Neto, o mais bem comportado, têm as vidas ceifadas ainda na década de 1990 —, mas a velhice dos três sobreviventes ganha uma ressonância tão expressiva que acaba dominando toda a história. Sem dúvida o responsável por esse efeito é Álvaro, o mais longevo da turma, cuja sarcástica rabugice desponta já nas primeiras linhas do romance:

“Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me dêem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos.”

Nossa ilustre autora pratica um humor refinado que se vale da fina ironia, do sarcasmo, do cinismo para conseguir transformar histórias noturnas de velhice humana numa ensolarada comédia carioca de costumes. Esse é o aspecto mais fascinante da obra: individualmente, as cinco histórias são banais, desgraciosas, por vezes até sombrias; vistas na perspectiva de um conjunto, ganham brilho e leveza, pois se completam para compor a crônica de uma época que começa nos anos do desbunde (termo usado com muita propriedade pelos editores), a versão carioca da grande revolução sexual que sacudiu o mundo na década de 1960. A cidade que recém havia perdido o status de capital federal ainda mantinha a primazia como metrópole, e era nela que as novidades aportavam, eram processadas e só depois chegavam ao resto do país. O sexo deixava aos poucos de ser um assunto velado para virar tema de conversas de bar, o feminismo entrou em cena e foi logo tratando de empurrar o machismo dominante para fora da sala, a vida começava a pulsar numa cadência mais livre e bem mais atraente. Os vibrantes protagonistas da grande virada são os idosos alquebrados que povoam agora as ruas de Copacabana, tropeçam nas pedras portuguesas do calçamento irregular, morrem de queda, infarto ou simples cansaço de viver. O humor melancólico da autora tem sua gênese numa aguda percepção dessa realidade.

Fim é o livro de estreia de Fernanda Torres e realmente gostei bastante. O ofício de escritor é um aprendizado perene e contínuo; a evolução na carreira, algo decorrente desse aprendizado; e é raro, muito raro, que um primeiro livro revele um ficcionista já pronto e acabado, que espreite o mundo com um olhar humano e ao mesmo tempo exclusivo e que tenha uma dicção adequada para traduzir em palavras o que percebe com a agudeza de todos os sentidos. Não é algo fácil de ser alcançado, mas Fernanda Torres demonstra sobejamente ter conseguido. Em casos como esse, o grande desafio está em manter o bom resultado da estreia em obras posteriores, sem repetir a fórmula e surpreendendo outra vez o leitor. Já consegui a sua segunda obra, estou ansiosa pelo resultado. Fernanda Torres nunca foi minha preferida nos palcos e televisão, mas agradou bastante como autora.

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