De imaginar

Se nos sentimos inclinados a esquecer quanto existe no mundo além daquilo que
antecipamos, talvez a culpa seja um pouco das obras de arte, pois nelas encontramos o
mesmo processo de simplificação ou seleção que se manifesta na imaginação.

As impressões artísticas envolvem uma redução severa daquilo que a realidade nos impõe.
Um guia de viagem pode nos dizer, por exemplo, que o narrador passou uma tarde inteira
viajando para chegar à cidade X nas montanhas e, depois de uma noite em seu mosteiro
medieval, acordou com um alvorecer nebuloso. Mas nunca passamos uma tarde
simplesmente viajando. Sentamo-nos em um carro. Sentimos vontade de usar o banheiro. A poltrona esquenta demais. Contemplamos um campo lá fora. Voltamos o olhar para o interior do carro. Lampejos de ansiedade se atropelam em nossa consciência. Notamos o combustível quase no fim, nos bancos de trás uma conversa irritante e aquele calor que ar condicionado algum dá jeito. Uma unha quebrada no dedo indicador puxa um fio da roupa. Começa a chover. Algumas gotas formam uma trilha de sujeira pela janela empoeirada. Perguntamo-nos quanto falta para chegar e onde estávamos com a cabeça de sair de casa. Voltamos a olhar para o campo. Continua a chover. Finalmente, o carro se movimenta. Passa por uma ponte de ferro e logo se detém, inexplicavelmente. Uma mosca pousa na janela. E é possível que mal tenhamos chegado ao fim do primeiro minuto de um relato detalhado dos acontecimentos por trás da enganadora frase “ele passou a tarde viajando”.
Um narrador que nos fornecesse tal profusão de detalhes rapidamente nos
enlouqueceria. Por infelicidade, a vida muitas vezes adota esse tipo de narrativa, cansando-nos com repetições, ênfases enganosas e enredos inconsequentes. E insiste em nos mostrar a fábrica de eletrodomésticos, a alavanca de segurança do carro, o cão vira-lata, um cartão de Natal e uma mosca que pousa na borda e, depois, no centro de um cinzeiro cheio. Isso explica o curioso fenômeno que torna mais fácil vivenciar a fruição de elementos valiosos na arte e na expectativa do que na realidade.

As imaginações da expectativa e da arte omitem e condensam, eliminam os períodos de tédio, dirigindo nossa atenção para momentos críticos e, assim, conferindo à vida, sem mentir nem enfeitar, uma vividez e uma coerência que lhe podem faltar na confusão perturbadora do presente

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