Sou Humano

downloadDe que modo se sente uma pessoa quando o mundo não reconhece como
humano o seu modo de falar, de se expressar, de andar, de se locomover, de ver, de
não ver? Que tipo de olhar somos capazes de enviar a alguém quando notamos, em
qualquer parte de seu corpo, algo que imediatamente desencadeia em nossas mentes
um processo para ressignificá-los, para rever seu valor humano e, na sequência,
atribuir-lhe um valor de “menos humano”?
Pode ser uma prótese no lugar do olho, um braço que não existe mais, a mancha
grande e cabeluda na face. O quanto revela de nós esse olhar, ao outro, que ao mesmo
tempo é analítico, julgador e envergonhado? Envergonhado porque tenta apagar
vestígios do obscuro ritual que se passa em nosso íntimo. Não que esse processo de
avaliar quem é mais humano ou menos humano, mais normal ou menos normal, seja
consciente, mas o constrangimento que ele naturalmente gera, sim. O
constrangimento reflete uma verdade pouco nobre e bem escondida: somos educados
para acreditar que existe uma hierarquia entre condições humanas.
Seríamos então um composto de percentuais variados de humanidade e devemos lidar
com esta informação sem traumas? Bebês nascidos com síndromes genéticas são
menos humanos do que outros cujos cromossomos estão em número e tamanho
“corretos”? Alguém sem pernas é apenas 60% humano? Idosos com doenças
neurológicas degenerativas perdem a cada dia sua humanidade a ponto de se
tornarem girafas, moscas, plantas carnívoras? Uma pessoa cega seria menos gente se
analisada sob um hipotético “Quadro Classificatório de Condições Humanas”? Jovens
surdos, principalmente aqueles que se expressam unicamente pela Libras, a língua de
sinais brasileira, têm menos valor humano do que os demais, jovens ouvintes que
falam apenas o português?
Embora a tendência seja a de responder um NÃO categórico e ofendido a essas
perguntas, nossas práticas diárias denunciam o contrário. Refiro-me a formas sutis de
discriminação que, mesmo com o propósito de valorizar pessoas com deficiência,
acabam segregando-as cada vez mais. O simples fato de considerá-las especiais já as
distância do gozo incondicional dos Direitos Humanos, gozo que antecede qualquer
norma nacional ou internacional. É aflitivo constatar a naturalidade com que nos exercitamos em atribuir um sinal “positivo” ou “negativo” para diferentes condições e características humanas. Quem nasce de um ser humano é um ser humano com o mesmo valor.

Nascemos, portanto, incluídos no conjunto Homo sapiens. Algo pode ser mais simples de ser entendido? Diariamente, por termos uma concepção de ser humano minimizada, tomamos decisões inadequadas, das mais corriqueiras às mais estruturais. Mesmo o terceiro setor tem avançado pouco quando o assunto é gente. Incluindo-me como uma trabalhadora dele, pergunto: 1) Quem de nós costuma avaliar se o tamanho das portas dos banheiros das organizações que dirigimos permite a entrada de uma pessoa em cadeira de rodas? 2) Que organizações do terceiro setor têm a preocupação de garantir que seus sites sejam construídos com acessibilidade para programas de voz utilizados por pessoas cegas?

E eu não estou aconselhando, aqui, que cada organização tenha dois sites: um comum e um só para pessoas cegas, pois isso também não é o que pressupõe a inclusão.
Adolescentes brasileiros continuam sendo educados para ter desfigurado o seu conceito natural de humanidade. A maioria cresce acreditando, a exemplo de seus pais e educadores, que pessoas com deficiência são um deslize da natureza. Foi o que o projeto Quem cabe no seu TODOS? constatou ao realizar as Oficinas Inclusivas pelo Brasil. Comprovou-se  que a maioria dos jovens com os quais atuávamos nunca havia visto de perto alguém de idade similar com deficiência. Mesmo entre adolescentes com diferentes deficiências – física, mental, múltipla e sensorial – havia o estranhamento e a cerimônia de quem não se reconhece como parte de uma mesma geração.
Para esses jovens será difícil, mais tarde, empregar espontaneamente uma pessoa com deficiência, isto é, sem a força de medidas legais. Ou, simplesmente, atendê-la em um consultório dentário sem se sentirem constrangidos por sua cegueira, seu déficit intelectual. Ou, ainda, cumprirem sem achar “caras e desnecessárias” as normas de acessibilidade arquitetônica e de comunicação que garantem a todos os cidadãos entrar em prédios públicos e se proteger de incêndios.
Expandir a consciência social dos adolescentes e jovens brasileiros para que nela caibam todos os humanos. Essa tem sido a minha busca e a dos projetos da Escola de Gente. De que modo se sente uma pessoa quando o mundo não reconhece como humano o seu modo de falar, de se expressar, de andar, de se locomover, de ver, de não ver?

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