Texturas da minha infância

imagesOuço a chuva tamborilar no telhado e me permito uns minutinhos a mais na cama. De repente me transporto ao mundo da minha infância. Aquela época sem muita pressa, em que os dias demoravam muito a passar e o Natal custava a chegar.

O barulho da chuva me faz lembrar a voz suave da minha mãe pela casa, seu timbre com poderes curativos que abrandava qualquer pesadelo infantil. Pelas frestas, o gostoso aroma do café invade o quarto. Um convite irrecusável.

A casa que me viu crescer agora parece menor, antes percorria pelo corredor e escadaria que me levavam aos quartos, hoje tão curtos, antes guardavam segredos nas sombras que se formavam pelos raios solares e a confusão de móveis, passarinhos, cachorros que corriam pelo quintal, quintal que também hoje se mostra tão pequeno.

Essa casa guarda nas paredes um passado repleto de emoções e sensações que às vezes me vêm à boca como um gosto doce, noutras gelam o coração, aquele frio que perpassa pela alma e você não sabe se sente medo pelo tempo que escorre de forma irrevogável e sem negociações ou se sente aquela saudade que lateja, pelo tempo que passou e que se você pudesse saber o futuro, reteria ao máximo. Nas paredes guardam também nossas cicatrizes das perdas que nos moldam, que nos faz crescer no meio da dor, daquela pessoa que partiu e você não teve oportunidade de dizer o quanto ela era amada, ou de você perceber o quanto foi amado.

O tempo vai passando e as lembranças se acumulam dentro de nós, vão ficando adormecidas e afundadas dentro da gente para caber novas experiências, memórias, sorrisos e saudades, até que alguma coisa nos desperte e nos faça reviver tudo de novo. A idade adulta nos serve como reflexão acerca do que vivemos, a grande maioria de nós, se pudesse, passaria alguns dias revivendo os tempos de outrora. Infância, colo de mãe e dias longos ao sol, brincadeiras intermináveis e toda a vida pela frente.

Tomei meu café da manhã na mesa da cozinha já assistindo a minha mãe planejando o dia, os seus afazeres e senti os ecos da minha infância aqui bem vivos dentro de mim. Os passarinhos barulhentos voando de galho em galho nas árvores atrás da casa me encheram de alegria, uma alegria diferente como se me dissesse: Apesar de tudo, o que se viveu foi bom. E foi e é. A vida se renova, a gente não pode fugir e nem se furtar do novo, mas é essencial que se conserve quem fomos, nos tornamos.

Somos acúmulo de memórias e elas são como células que nos compõem. Sorrisos, átomos de viver, pequenos e significantes. A vida, um átimo.

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