A Bibliotecária de Auschwitz – Antonio G. Iturbe

10849975_1018925731466206_7167752818000179797_n“Alguns não vão compartilhar dessa fascinação por descobrir o que levou algumas pessoas a arriscar a vida para manter aberta uma escola secreta e uma biblioteca clandestina em Auschwitz- Birkenau. Alguns pensarão que se trata de um ato inútil num campo de extermínio, pois existem outras preocupações mais urgentes – afinal, livros não curam doenças nem podem ser utilizados como armas para render um exército de carrascos, não enchem a barriga nem matam a sede. De fato, a cultura não é necessária para a sobrevivência do homem; apenas o pão e a água. Com o pão para comer e a água para beber, o homem sobrevive, mas só com isso a humanidade inteira morre. Se o homem não se emociona com a beleza, se não fecha os olhos e põe em funcionamento os mecanismos da imaginação, se não é capaz de fazer perguntas e vislumbrar os limites da sua ignorância, é homem ou mulher, mas não é pessoa. Nada o distingue de um salmão, de uma zebra ou de um boi-almiscarado.”

Um livro, de fato, não alimenta o corpo, mas pode muito bem alimentar a alma e é isso que eles fazem com nossa incrível personagem Edita Adlerova (Dita Dorachova) que, prisioneira de Auschwitz, só tem a sua imaginação como fio condutor à vida.

Mas a Bibliotecária de Auschwitz não é um livro fácil de ser lido, muito menos resenhado. Depois de anos lendo livros sobre a Segunda Guerra e suas vítimas, me deparei com esse onde a riqueza de detalhes nos faz lê-lo com calma e ali sofremos junto com Dita, uma adolescente que tem quase a mesma idade de Anne Frank(aliás, aparece no livro), e ao invés de estar frequentando a escola e se apaixonando pela primeira vez, ela luta para sobreviver, para não ser morta e ainda arruma tempo para esconder seus livros. São eles que lhe dão força para continuar.

Mas por que as histórias de campos de concentração nos fascinam tanto? Eu, pelo menos, fico grudada ao livro e não consigo largar, por piores que sejam as situações ali descritas (são muitas e revoltantes), torcendo pelos personagens do bem. E me dou conta de que, para mim, pelo menos para mim, os campos de concentração são uma metáfora de minha realidade, na qual estou presa contra minha escolha. E os nazistas são todas as pessoas más que destroem este mundo, os corruptos, os gananciosos, os criminosos, os inimigos profissionais e políticos, não todos, apenas os que agem com má fé. E em nosso mundo de hoje, parece que os maus estão com a bola da vez.

Sim, este é um mundo horrível, como disse Saramago, e verificar que a vitória está com os que resistem, com os que conseguem rir apesar de todo absurdo, focar na beleza apesar de toda crueldade, e recusar-se e odiar, pois, como diz um dos personagens do livro, o professor Morgenstern, se nos permitirmos odiar, eles terão vencido a guerra, ao nos transformar em um ser moralmente deformado como eles. 

Baseado na vida real de Edita Dorachova e seu incrível mentor Fredy Hirsch, que acreditava que alimentar as almas era prioritário, e conseguiu manter o espírito vivo de crianças, jovens e idosos durante anos, em Auschwitz, com o uso de livros vivos (pessoas de boa memória que decoravam livros), quadros-negros imaginários e uma biblioteca secreta, arriscando a própria vida para organizar uma escola no campo, alimentando a esperança: um dia, quando sairmos daqui, precisamos estar preparados para reconstruir o mundo lá fora.

Este é um livro real, com pessoas reais que sofreram perseguições e humilhações, onde nem a vida e nem a morte tinham qualquer dignidade diante da supremacia nazista. É um livro que nos faz refletir acerca daquilo que nós somos e do que devemos ser, nossos valores, o amor, a fé e a esperança. Triste e emocionante. Recomendo.

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