Sobre um gênio

Música não faz parte de disciplina escolar, mas deveria e talvez isso fizesse entender que cada uma tem o seu valor, remontam uma trajetória, contam um estilo de vida, de um povo ou de uma região. Dizer que funk não é cultura é de uma burrice sem tamanho. O funkeiro relata a sua realidade, até mesmo o funk ostentação de que todos criticam, há uma certa versão (e talvez inversão) de valores que determinada parcela da sociedade vive e convive. Ora, no Brasil, o primeiro bem durável que as pessoas compram é um carro. Isso faz parte de uma cultura adquirida ao longo do tempo, o Brasil passou por transformações e aqueles que conseguiram, enfim, o poder de compra usam e usufruem como bem entendem. Cada um define para si o que é prioridade. Mas quando falamos de música, costumamos catalogar com: isso presta/ isso não presta, mas nos esquecemos que o gosto musical, assim como o gosto pessoal por cores, sabores é subjetivo. É cultural também. Não é porque não gostamos de determinado ritmo, que podemos dizer que não há cultura naquilo. No Brasil as pessoas têm a inútil e imbecil mania de conceituar de forma errada a cultura.

Cultura significa cultivar, e vem do latim colere. Genericamente a cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade como membro dela que é.

Diante disso, não temos uma cultura definida, ela é um organismo vivo tal como a sociedade. Rock é cultura, assim como funk carioca, funk ostentação, axé, sertanejo de raiz, sertanejo universitário, e diante disso, até mesmo o conceito de “MPB” fica um pouco distorcido e hoje em dia já caiu em desuso, música popular é o que todos ouvem, cantam e popularizam. Precisamos parar com o elitismo musical, ele somente promove o preconceito.

Mas vamos falar de música. Não recebi na escola uma educação musical, toda a minha “bagagem” veio de casa, graças ao bom gosto (subjetivando, claro) dos meus pais. Cresci ouvindo os sambas irreverentes de Bezerra da Silva, o gingado gostoso de Jorge Ben jor , Raul Seixas e muita, mas muita MPB – a dita MPB clássica: Tom Jobim, Elis Regina, Caetano Veloso, Toquinho e Chico Buarque essencialmente. Não eram músicas infantis, mas fizeram parte de toda a minha trajetória infantil e isso, de certa forma, mudou muito o meu entendimento daquilo que eu queria para mim, bem como o que eu entendia sobre o que ser bom ou ruim. Essa carga familiar foi determinante sobre o que eu iria buscar no mundo – musicalmente falando, obviamente. É claro que depois de tanta música com letras elaboradas, linguagem mais formal, eu não iria buscar ouvir músicas com letras vazias, seria pouco ou nada improvável que eu gostasse de funk carioca, como de fato eu não gosto. Não gosto porque as suas letras não me dizem nada, não fazem parte da minha realidade.

downloadEsta semana o Chico Buarque completou 70 anos de idade, eu cresci ouvindo e me alimentando de Chico, seus livros não tão bons quanto suas músicas compuseram um pouco o meu imaginário, principalmente “Budapeste” – um livro apaixonante que virou filme. Chico Buarque me ensinou música, letra e um português bem cantado muito diferente das letras onomatopeicas que brotam em profusão hoje em dia. Suas letras politizadas, romanceadas e subliminares para furar a censura sob a qual o Brasil vivia mostram a capacidade de um artista verdadeiramente brilhante.

Os romances contados em letras muito bem colocadas nos faz pensar (um ex namorado certo dia brincou que só conseguia ouvir Chico Buarque com um dicionário ao lado), são letras com metáforas, cheias de poesias e um ‘rebuscamento’ que não vemos mais. Hoje em dia não concordo com boa parte da postura pessoal que o Chico vem adotando, questões político/ideológicas que ele defendia e hoje suas atitudes e opiniões parecem tão controversas, aquele que lutou contra o cerceamento da imprensa, hoje defende a proibição de biografias não-autorizadas. Nada disso mancha a sua obra composta e tão tocante a todos nós, a mim principalmente. De tudo, fica o artista brilhante que conseguiu me tocar como poucos, bem poucos. Os artistas de minha geração nenhum falou comigo como ele, talvez eu esteja sendo injusta com Renato Russo e até mesmo com o Cazuza, eles me perdoariam se soubessem que antes deles, o Chico foi meu primeiro amor. Primeiro amor, todo mundo sabe. Não se esquece.

Difícil eleger uma música preferida dele, a mim cada uma significa um momento, uma lembrança distinta que remonta meus momentos mais felizes, que trazem o gosto infantil e ingênuo de quando eu sequer entendia o que ele cantava. Mas consigo dizer que meu top dez de Chico é:

1 – Futuros Amantes

2 – Cálice

3 – Apesar de você

4 – Trocando em miúdos

5 – João e Maria

6 – Olhos nos olhos

7 -Eu te amo

8 – Bye bye Brasil

9 – Mil perdões

10 – Minha história

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4 comentários sobre “Sobre um gênio

  1. Carolina, amo ler seus posts, é incrível sua forma de abordá-los! E sobre o Chico, ah… Que homem! Me ensinou muitas das coisas que sei hoje.
    Sobre a música como disciplina escolar, há uma escola humanista, carregada das mais diversas culturas e que tive o prazer de estudar minha infância inteira, a Waldorf. Foi lá que aprendi a gostar mais e mais do Chico e outros grandes nomes da música brasileira de raiz. Lá nós ouvíamos, cantávamos e dançávamos; houve, inclusive, uma peça teatral contando a história de Chico com a sua fase de escrever músicas infantis; infelizmente não é uma metodologia que todos os pais gostam, mas é uma escola mágica, que dá à criança a melhor infância possível!
    Quanto ao “Precisamos parar com o elitismo musical, ele somente promove o preconceito.” eu creio que isso seja culpa da cultura de massa, na qual as músicas sem uma bagagem muito ampla dominam os ouvidos da população (infelizmente).
    Adorei o seu top 10 e é quase o mesmo que o meu!
    Um beijo,
    Ingrid.

    • Olá, Ingrid, obrigada pelo comentário elogioso. Sobre a sua educação musica, eu senti uma pontinha de inveja (a boa, claro), quisera eu ter tido uma educação musical, talvez assim eu pudesse até mesmo escrever com mais propriedade sobre o assunto. Música é um enfeite para a alma, um adorno que todos gostam, independente do estilo e isso enriquece demais a gente.

      Sobre o elitismo musical, eu penso que as pessoas não valorizam mais como se deve, quando eu falei sobre a cultura musical, falava um pouco desse elitismo, o que é compreensível tendo em vista as músicas que caem mais no gosto popular, vide: lepo-lepo e Ai se eu te pego. Mas até aí há uma cultura – a cultura daqueles que se identificam com essas letras, – eu penso que o artista (os menos brilhantes como Chico) abordam apenas a sua realidade e, nós que não fazemos parte dela diretamente acabamos achando uma porcaria. Mas bastaríamos inverter, colocar alguém que gosta somente de funk para ouvir Chico Buarque, Tom Jobim, Ella Fitzgerald, etc, não irão gostar, não faz parte da realidade deles e é quase certo que eles odiariam, sem generalizar, claro. Mas a cultura existe, cada uma respeitando a sua realidade, a sua “carga social”.

      Depois que eu fiz o meu TOP 10, pensei em milhares de outras como “Tatuagem”, “O que será – a flor da terra e à flor da pele”, “Cotidiano”, “O caderno”, etc… Dificil elencar as músicas de Chico.

      Beijo

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