O nome do vento – Patrick Rothfuss

nomedoventoMichel Foucault escreveu em seu fantástico livro “As Palavras e as Coisas” a seguinte máxima: “O Homem é uma invenção cuja recente data a Arqueologia do nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim das barreiras que prendem a sua liberdade criativa estejam próximas do fim. Se estas disposições viessem a desaparecer tal como apareceram (…) pode-se apostar que o homem desvaneceria, como na orla no mar, um rosto na areia.”

Ao ler “O Nome do Vento” o nome de Focault surgia na minha mente em vislumbres constantes. Focault foi responsável por uma mudança significativa no modo de pensar do Séc. XX apoderando-se da máxima de que “tudo tem um nome” e a partir do momento em que você a nomeia, ela ganha vida, ganha poder.

Foi isso que Patrick Rothfuss fez. Deu nome, corpo, vida e alma por sua ideia e escreveu sem sombra de dúvidas, o melhor livro de literatura fantástico-medieval que eu leio depois das grandes obras de Tolkien. É um livro profundo, filosófico e apaixonante, que desperta no leitor a sensibilidade de se apaixonar pela vida de trupe dos Edena Ruh, pelas canções, pelas paisagens deslumbrantemente descritas e por uma narrativa rica, forte, que faz com que a nossa mente divague por um mundo criado com capricho e determinação.

Kvote também me faz lembrar de Foucault. Um garoto de uma sensibilidade surreal, que absorve tudo ao seu redor com uma facilidade monstruosa, que tem uma sede de busca insaciável e que entendeu assim como o grande filósofo que o mundo ao seu redor pode ser redefinido através das palavras. Kvote é a imagem de seu pai, um grande músico que perdeu a vida no momento em que ele fez das palavras uma flecha certeira, que quebrou um dos paradigmas mais fortes do livro: Afinal, o que é o Chandriano?

Não quero tirar a sua surpresa e a sua emoção falando aqui da vida dura e dificil que Kvote leva depois que perde os seus pais. Mas, devo dizer que a cada página que virava eu parava pra pensar e me via em muitas situações daquelas, seja na pele de Kvote ou no lugar daqueles que contribuíam para a sua miséria. Acompanhar sua chegada a universidade é algo emocionante, o seu sonho de encontrar uma biblioteca, a ânsia de responder todas as suas perguntas, e o imenso dever de aprender.

E assim a vida de Kvote é descortinada aos nossos olhos, uma figura que entendeu o significado das palavras na pele, que usava o dom das palavras da melhor forma que alguém pode querer, e que mesmo tudo o que nos foi apresentado até aqui sejam apenas lembranças do proprio Kvote, eu tenho a esperança e a expectativa de que ele ainda voltará a entrar em ação, para novamente dar corpo a todas as histórias que contam sobre ele, sejam elas reais ou não.

Com um livro de estreia arrebatador, Patrick Rothfuss me fez desejar a continuação da sua obra enlouquecidamente. Agora com o segundo livro em mãos e já sabendo que o terceiro está a caminho e também teremos uma série de TV, não contenho a ansiedade.

O presente não se detém. Não podemos imaginar um presente puro, pois ele não teria o mínimo valor. O presente sempre tem uma partícula do passado e outra do futuro. Portanto, nós somos seres cambiantes e permanentes. Somos algo que temos o mistério como essência, e esse mistério só pode ser revelado e compreendido por aqueles que mergulham em suas lembranças e trazem a tona os verdadeiros significados de seus sentimentos. Como seria o homem sem a sua memória? Como seria viver sem o ruído constante de nossa mente maturando os nossos segredos?

A nossa memória é quem dita o que somos no presente e o que nos tornaremos no futuro.

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3 comentários sobre “O nome do vento – Patrick Rothfuss

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