Sonhar

a11Lembro da palavra, mas me escapa o conceito.

Impelida por uma vontade unilateral de mover-se, eu me atiro ao insano planejamento de uma viagem sem destino. Escolho ilhar-me da companhia humana. Aprecio as construções arquitetônicas dos homens, mas não lhes dou o menor valor ante sua presença.

Vago por lugares ermos de vidas, apenas organismos silentes se movimentam nas ruas. Alguns deles devem possuir histórias que eu gostaria de ouvir. Histórias acontecidas no intervalo entre um dormir e o outro. Nenhum deles me contaria seus sonhos. Parecem sentir vergonha de me confessar o impossível. Lembro de um homem, também um curioso como eu, a respeito dos sonhos. Para tanto, criou uma nova ciência. Legou aos sonhos, vontades do corpo e acontecimentos da infância.

Não poderia ser apenas um curioso de sonhos, precisava mais daquela fonte. É tão inesgotável o mundo dos sonhos. Infinito no seu curto espaço entre a noite e o dia.

Criou um roteiro por onde os outros viajantes passearam. Mesmo ilhada da companhia dos homens, eu vagueio por alguns dos seus sonhos. É simples, uma olhada em suas posses e vejo a necessidade de se perdurarem no mundo. A vontade de permanecerem no útero, lugar de conforto e solidão.

Percebo muitas das vezes, que um padrão guia seus passos em direção à felicidade. Adaptam a cronologia de dias e noites para que possam se medir com os outros. Como se fosse simples para todos o que é para um. Descubro que sou atemporal na medida em que meu tempo é diverso dos que morrem tarde. Se cada década deles tem uma dimensão de prazo vencido, uma década para mim, é a certeza de que dez anos já se passaram. É passado, não volta mais. Não procuro falar sobre meu passado, dar uma estrutura linear para o estúpido tempo passado. Minhas conversas não tentam justificar meu passado, ao contrário de muitos outros que escrevem suas biografias ainda vivos.

Por ceticismo, me tornei niilista, uma palavra rebuscada, mas única no momento que define minha postura frente ao mundo, nesse exato momento. Do passado recente que formou o que sou hoje, eu guardo muitas lembranças. Um dia, todas elas serão protocolares para se viver em sociedade. Nada do que aprendi no passado hoje parece ter validade, de tão corriqueiro que se tornou o hoje. Muito do que aprendi, foi repetido muitas vezes, até eu aprender e esquecer. Vejo o mesmo método sendo usado para que eu compre cada vez mais. Aprender a discernir entre o melhor produto e aquele que consegue repetir mais vezes a verdade de sua qualidade.

Não sou a pessimista que todos encontram nos meus escritos, apenas relato alguns fatos que soam pessimistas por ser eu quem sou.

Minha viagem se dá no exato momento no qual percebo que mover-se é mais que um deslocamento geográfico. É uma nova postura frente a vida. Mergulhada na mente dos homens, eu percebo que a receptividade depende do quanto quero dar de mim. O destino de minha viagem será a mente humana, ente inumano que habita os seres humanos. Sonhos humanos serão meu alimento. Não vou saber de nenhum dos seus aspectos físicos, quero conhecer os sonhos. Talvez eu descubra o porquê de parar de sonhar.

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