O trovão

relampagosNão era dia algum. Obsoleto, o tempo rondava quase inane por um período menor ao de uma frequência cristalina de quartzo. O vento rompia em brisa leve o ensurdecedor silêncio da ocasião; seguido pelos murmúrios das folhas das árvores e dos pássaros em que nelas pairavam…

De súbito, avisto um relâmpago rasgar o crepúsculo – um estrondo basta-se. Cru, aquele som chega a me causar espasmos de nostalgia, tão embora nenhum fato específico ocorrido me venha mente. Aliás, minha memória seria agora inóspita não fosse por uma única e tênue lembrança, a de que simplesmente vivi. Quem era eu antes de escutar o último trovão que ecoou na terra? Desse já não me lembro mais, não sei mais dele. Só sei que um dia eu o fui. Assim como os trovões presentes em meu antepassado, que mesmo quando irreconhecíveis, sei que os escutei.

Trovão é sempre o eco de outro trovão. Um trovejar nunca soará para mim como desse mesmo trovão, mas sim como o dos outros trovões que a ele antecederam. Porque trovão é sempre presente do pretérito mais que perfeito. É como o suspiro de uma concha posta rente ao ouvido. É como teus gemidos indecifráveis. Abstratamente, me faço lembrar um você que ainda conheci, mas que já me é clara a presença. Amanhã te conhecerei mais um pouquinho e já sinto as saudades que sentirei de ti depois de amanhã. Saudades de ti e desse mais um pouquinho que ainda não conheci. Assim como já sinto saudades do próximo trovejar que escutarei.

Parei de acreditar no tempo porque o presente nunca me pareceu cotidiano. Acendo mais um cigarro e esse cigarro se parece com todos os outros, menos com o qual eu agora fumo. O tempo se dissolve todo nesse exato instante porque o que fui está sempre se renovando para mim assim como o que agora sou. Assim sou eterna porque a eternidade me soa como um trovão. A eternidade é sempre um atemporal.

Me faço renascer a cada fragmento de instante. Ter uma lembrança é apenas a minha maneira de velar meus mortos. Assim, sepulto-me diariamente por diversas vezes, ponho-me em declive para o fundo do meu sepulcro e no exato instante em que aterrizo-me; posso ouvir um nítido e hermético trovejar.

 

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