Livros, amor incondicional

livrosEu sempre tive uma relação de amor com os livros. Desde pequena acostumada a carregar algum sob meus braços. Eles sempre foram meu brinquedo favorito. Lembro de mim, entre 7 e 10 anos cultivando outro tipo de brincadeira, sempre com lápis e papel nas mãos, talvez por ter crescido sem irmãos para brincar eu desenvolvi um mecanismo solo de diversão. Meu único irmão só veio aos 10 anos ocupar a minha vida, antes disso, minhas companhias eram primos nos fins de semana, nos quais eu me permitia ser criança normal.

Meus pais sempre incentivaram e estimularam alguma inteligência em mim, com livros e jogos de raciocínio, cresci diferente de todas as meninas que brincavam de boneca e aos 12 anos já cultivavam amores pela maquiagem, saltos e namorados.

Enquanto isso meus olhos permaneciam nos livros, encantada com mundos criados, absorvida por histórias fantásticas de realidades paralelas. Crescer entre páginas me trouxe senso crítico, capacidade de argumentar e me abriu um mundo de possibilidades.

Mas minha relação com os livros é muito mais do que de amor, como disse no primeiro parágrafo, é um amor real que cultivo com esmero, um amor reverente que não sei de onde vem. Lembro muito de um conto de Clarice Lispector, o “Felicidade Clandestina” onde ela narra a história de uma menina apaixonada por livros que sofre com um jogo perverso da colega de escola, filha de dono de uma livraria e que sempre prometera, mas nunca lhe emprestava um livro. Nesse conto, Clarice escreve com muita sensibilidade os prazeres de quem lê um livro.

Felicidade clandestina é um conto do qual me identifiquei muito e desde sempre porque a minha relação com o livro é parecida, especialmente quando ela fala: “Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Eu guardo meus livros, meus olhos brilham de vê-los ali na mesa de cabeceira, os livros que não li, os mundos que ainda não mergulhei. Eu me apego aos personagens, sofro junto, sinto saudades, rio e choro à medida que a história avança. Mas guardo esse encanto que o trecho do conto fala. Gosto de pegar o livro de surpresa como se ele me tomasse de assalto, quando eu o abrir, todo aquele mundo fascinante estará aos meus pés, ao encontro dos meus olhos, prolongo esse prazer, é de fato a minha felicidade clandestina também. Suo frio, tenho taquicardia quando recebo um livro novo e finjo displicência, olho de soslaio, finjo esquecer.

Mas eu sucumbo aos seus encantos, me debruço e caio inteira, me sinto parte daquele enredo, vivo sua época, suas tramas e mistérios. O encanto não passa, me apaixono, sou capaz de morrer junto com um personagem. Já senti vontade de escrever pro autor e xingá-lo, já senti vontade de procurá-lo e dar um abraço apertado, dizer-lhe que o livro mudou a minha vida, transformou a minha história, me fez enxergar o mundo de outra forma.

Bem aventurado é aquele que tem por amigo um livro, são conhecimentos, fantasias e sonhos que realidade nenhuma poderá roubar de você. Que venham mais personagens, mais histórias de amor, fantasia, coisas impossíveis de acontecer. Que venham mais Clarices, Saramagos, Zafóns. Que venham mais Nárnias, Macondos, Hogwarts. Que venham mais Alices, Sofias, Potters, Cullens e que o mundo seja um lugar menos insuportável de se viver.

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4 comentários sobre “Livros, amor incondicional

  1. Não mundo uma vírgula de lugar, como já falei agora a pouco no Twitter. Você não descreveu apenas você e seus costumes, mas todo leitor compulsivo.

    Eu já conhecia esse conto do Clarisse e, se não estou enganado, tenho salvo aqui no meu laptop.

    Acho que a leitura é a atividade mais saudável do mundo e, sim, eu teria coragem de substituir exercícios físicos por um om livro.

    Eu sou filho único e desde os 3 anos eu leio e escrevo. Minha avó diz que antes de eu ir para o maternal, com 3 anos, eu ficava em casa escrevendo o “A, e, i, o, u” e fingido ler o que estava nos livros que eu rabiscava. Como minhas tias me odiavam nessa época… 🙂

    Muito bom o teu texto. Me fez lembrar de algumas coisas boas que se passaram.

    Beijos!

    • Adriel querido, obrigada. Quem dera que todo fossem compulsivos como a gente, né mesmo?

      Sobre o conto da Clarice, foi o primeiro dela que eu li na vida e me apaixonei de cara. O conto dá nome a um livro de 25 contos, o felicidade clandestina. Leitura que recomendo muito. 🙂

  2. Eugenia Carioca disse:

    Que lindinho Carol! Tenho filho único e tentei preencher o tempo dele com livros, o primeiro livro dele aliás não foi livro foi uma coleção de revistinhas: turma da Mônica, Zé Carioca e pato Donald que foi minha irmã que presenteou-o, até pro banheiro ele levava e depois dei uma enciclopédia Delta-Larousse que ele levava sempre um livro no transporte escolar pra ir lendo pros amiguinhos! E até hoje dou livrou pra ele e ele já tem 22 anos acabou de se formar! Bjos

    • Parabéns Eugenia, por ter inserido livros durante a infância do seu filho, o resultado está ai, te enchendo de orgulho. 🙂

      Tenho aqui uma foto minha de criança, aos 4 anos já com uma caneta na mão. Adorei ter crescido dessa forma.

      Beijos

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