Desconstruindo a amélia

Foi-se o tempo em que a Amélia, aquela sem vaidade é que era a mulher de verdade. Tenho sérias dúvidas se a Amélia era mulher, ou se era acessório do lar.

Nos tempos da a minha avó e não muito distante, no tempo da minha mãe, no início dos anos 60, a mulher não tinha opinião e muito menos razão em qualquer assunto. Naquela época as mulheres não precisavam estudar, bastava no máximo saber ler minimamente e assinar o próprio nome e àquelas que teimavam em estudar e trabalhar eram vistas como mulheres que não mereciam respeito. É que naquela época, mulher era vista como na música do Mario Lago ( ai que saudades da amélia – interpretada por Ataulfo Alves) mulher desprovida de qualquer vaidade, mulher submissa e que não tinha vontade própria. Para a sociedade e para a igreja católica, as funções das mulheres eram de cuidar da casa, cuidar do marido e dos filhos. Mulheres que não tivessem (ou não pudessem) ter  filhos eram ridicularizadas, humilhadas, eram as chamadas “ventre-seco”.

Não quero ficar aqui levantando bandeiras feministas e nem tenho intenção de provocar nova revolta do Sutiã, acho e vejo que nós conseguimos muito espaço nessa sociedade machista em que vivemos. A gente vota,  ocupa cargos antes restritos aos homens, a gente decide quando e se queremos ter filhos, casar. Quebramos tabus sobre nosso corpo, a gente tem autonomia sobre nossos desejos e transamos na primeira noite sem medo de sermos chamadas de vagabundas ou do cara não ligar no dia seguinte.

Mas por mais que nós mulheres conseguimos um lugar ao sol, ainda encontramos discriminação, como há alguns dias atrás, eu estava no carro e um ogro gritou que meu lugar era no fogão, gritei de volta que o lugar dele era na jaula. Sem contar que ainda recebemos salários mais baixos executando as mesmas tarefas, e sofremos com  preconceito sexista. Na semana estava em um café no shopping e vi uma loja de brinquedos, fui lá dar uma olhada e fiquei pensando se avançamos mesmo na igualdade dos sexos. Os brinquedos ali são o reflexo de como a sociedade enxerga a mulher.

Enquanto os meninos são estimulados com brincadeiras lúdicas, jogos que estimulam sua inteligência, raciocínio lógico, noções de espaço e brinquedos que incentivam a prática de esportes. Para as meninas ainda persiste o jogo de bonecas e o jogo de cozinha. A mensagem não é subliminar, para mim está claro, isso é a propagação da cultura machista que a gente finge que acabou. Nossas meninas ainda crescem cuidando de bebês e aprendendo a cuidar de suas casinhas, são miniaturas de amélia, aquela amélia do Mario Lago que era só uma brincadeira, mas que na verdade era o retrato da nossa sociedade.

Com um pouco de sorte, essa menina vai crescer e perceber o mundo fora de casa  e pode gostar desse mundo, e vai trabalhar em busca de sua independência financeira, sua realização profissional, sua liberdade sexual. Essa menina vai querer experimentar coisas novas, vai beber até cair ou não, vai chorar de amor, vai rir por amor. Essa menina terá vaidade e vai morrer de dor na depilação, de fome na dieta, sem ar no vestido maravilhoso que por teimosia é um número menor. Essa menina, será uma mulher e terá orgulho disso, e talvez se case, queira dividir suas tarefas, sua cama, sua vida com um homem que poderá ser machista, mas que vai respeitá-la e talvez até tenham filhos e que tudo isso seja somente a opção dessa menina que se tornará mulher, nunca, jamais a regra.

 

 

 

Texto postado originalmente em um blog hoje fechado

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2 comentários sobre “Desconstruindo a amélia

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