Avenida Brasil e a nova vilania

Pouquíssimas vezes vi uma novela cuja vilã caísse no gosto popular como aconteceu com Carminha, personagem de Adriana Esteves em Avenida Brasil. Das mais lembradas, tem a eterna Nazaré Tedesco (Renata Sorrah em Senhora do Destino), Dona Altiva ( Eva Wilma em A indomada) e Tereza Cristina (Christiane Torloni em Fina Estampa). A concepção de “vilão” vem sendo mudada gradativamente nas novelas brasileiras, os autores têm dado mais leveza aos seus personagens, dando-lhes características cômicas.

Talvez essa nova vilania seja um reflexo de nossa sociedade, para tal pensamento, tenho duas vertentes: A primeira é que a vida real é dura o suficiente para que a arte tenha que imitá-la afim de retratar com maior realismo. Ora, ligamos a TV e nos deparamos com assassinatos, sequestros, roubos, erros graves de médicos, impunidade, abuso de poder, negligência. A suavização da teledramaturgia é bem vinda, ela nos oferece alento no divertimento, faz esquecer problemas e promove a desopilação.

Por outro lado, esse reflexo pode ser visto como a banalização de nossa realidade, nosso jeitinho omisso de acreditar que as coisas são da forma que são e nada vai nunca mudar. Ontem no último capítulo de Avenida Brasil, a personagem Carminha deixou a desejar, não por demérito da atriz, que aliás esteve maravilhosa do começo ao fim dando um show de interpretação, mas seu autor não soube segurar a trama. Carminha enganou Genésio, jogou Nina no lixão, levou seu cúmplice e amante Max para viver sob o mesmo teto de sua nova família que também foi enganada por ela. Impiedosa e cômica, Carminha conseguiu manipular bem a todos. Nos capítulos finais o autor quis humanizá-la, mostrando que as pessoas podem sim se redimir, pagar pelos seus erros, porém o enredo ficou aquém daquilo que se esperava, Carminha merecia ter ficado presa pagando pelos seus erros, ou mais, Carminha podia ter pagado na cadeia e depois matado a Lucinda, mostrando que nem todo mundo se ressocializa.

Eu gostava dos vilões clássicos das novelas, daqueles que a gente odiava, sentia vontade de desligar a televisão. Personagem que nos causava asco, revolta e indignação porque eu entendo que é assim que se retrata a maldade, nos causando sentimentos que nós nem sabíamos que éramos capazes de sentir. Vilões que despertavam discussões, que promoviam debates e reflexões. Personagens reais que vivem no meio de nós, se esgueiram em nossas vidas, personagens como a Yvone de Caminho das índias interpretada pela Letícia Sabatella que era uma psicopata, que era dissimulada, manipuladora e devastava tudo por onde passava. Também a Flora de A favorita, interpretada pela Patrícia Pillar, que cometeu seus crimes, foi presa e não se ressocializou. Essas personagens nos abriu os olhos quanto aos psicopatas, nesta época era lançado o livro “Mentes perigosas da Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (@anabeatrizpsi ), transformando-o em um dos livros mais vendidos no Brasil. Lembro também da comoção popular com o Marcos de Mulheres Apaixonadas, interpretado pelo Dan Stubach, personagem que espancava em sua companheira com raquetadas. Um personagem triste, passional e violento. Personagem cru, real, que nos causava repulsa, a partir dele começou-se a discutir mais claramente  a questão da violência doméstica e a necessidade de denunciar esse tipo de agressão.

As novelas, assim como livros, filmes e músicas tem uma enorme função de trazer à tona questões sociais das mais diversas esferas. É um veículo de entretenimento, mas também tem seu papel educativo, os vilões não devem passar batido nessas histórias, eles devem ser bem trabalhados e construídos, devem nos servir de reflexão e de lição. Nem sempre as histórias têm finais felizes e nem sempre a vida é boazinha, isso é verdade, é a vida de verdade. Uma novela precisa retratar sua realidade, sem deixar de lado a fantasia, mas não pode deixar a fantasia corromper a realidade.

Talvez seja mesmo que nossa sociedade esteja banalizando demais a violência, o desrespeito e aí, a comicidade dos vilões seja permitida, caiu no ridículo, a risada é o que salva. Triste, mas também é a realidade.

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5 comentários sobre “Avenida Brasil e a nova vilania

  1. Maravilha de texto. Ótima lembrança sobre o papel dos vilões da TV, lembro bem desses que você citou. Lembro também que a Nazaré Tedesco apesar da veia cômica, também conseguiu um grande apelo popular por causa de roubo de bebês.

    Lembro de Maria de Fátima de Vale tudo, que foi brilhantemente interpretado por Gloria Pires, entre outros.

    Texto oportuno, muito oportuno.

  2. Excepcional seu texto…claro objetivo e analisador com consistência …uma visão límpida sobre o tema…concordo sem tirar nem por..acrescento se me permite a banalização do “todo” pela TV má qualidade em sua programação enfim mais deseduca que contribui com algo.

  3. Kenia disse:

    A Justiça determinou suspensão da distribuição do livro “Mentes Ansiosas”, que chegou à lista dos dez mais vendidos. Autora do livro, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva está sendo processada por plágio pelo colega Tito Pais de Barros Neto, que escreveu “Sem Medo de Ter Medo” (Casa do Psicólogo). A decisão é liminar e ainda pode ser revertida.
    Até que enfim!!!

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