Shine eternally obfuscated by a mind with remembrances.

Hoje é um daqueles dias em que se eu pudesse, apagaria meu passado. Ou pelo menos parte dele, ou pelo menos a pior parte dele. É que passado ruim merece ser apagado, porque esquecido, é sabido que é impossível. O cérebro prega peças, esconde seus erros embaixo daquele tapete que você nunca tem acesso, mas uma hora ou outra ele vai levantar aquela poeira que você deixou escondida. Isso pode doer ou pode envergonhar. Vai te fazer arrepender, xingar, talvez até chorar, e você vai ter que lembrar de tudo,tudinho porque o cérebro é um masoquista, ele não somente expõe a ferida, como ele gosta mexer e esmiuçar tudo bem demorado, fragmento por fragmento que é pra te esfregar na cara o quão filha da puta você é. O cérebro é torturador cruel. Você põe uma música bem alta, conversa com milhares de pessoas, vai assistir um filme ou ler um livro, mas aquela lembrança, aquela poeira esquecida vai ficar ali martelando na sua cabeça ininterruptamente como se fosse um alarme disparado que só para quando você levanta e vai verificar o que aconteceu. Então você acaba cedendo e trava um diálogo com seu cérebro e ele vai devagarinho descobrindo as outras feridas e você é obrigada a rever tudo, se envergonhar o dobro. E ele te impõe a muitas iguais a essa, de tempos em tempos, sem aviso prévio. Vai querer se matar, na verdade, você acaba morrendo por dentro a cada sessão que teu cérebro te impõe. Não importa o tamanho da tua vergonha, da tua dor e o teor das tuas lembranças, o cérebro é bem filho da puta, vai querer discutir cada episódio e você vai querer justificar: e se eu tivesse feito isso, talvez se eu tivesse agido daquela forma, e se eu não tivesse ido, feito, mostrado. Vãs suposições que o cérebro ri da sua cara te chamando de loser. Fuck you stupid! Seu cérebro, seu inconsciente gargalham quando você tenta justificar, buscar explicações. Não há mais tempo. O passado é uma porta que só se abre de dentro, depois que ele fecha você jamais pode retroceder.

Se eu pudesse, apagaria do meu cérebro essas piores lembranças como no filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind. É uma forma covarde de se viver, eu sei. Mas só os covardes conseguem viver em paz num mundo onde o cérebro não nos deixa e me paz. Todo aquele papo antigo de que o passado serve como aprendizado é idiotice, conversa de quem não entende nada da vida, porque depois que você erra, fodeu-se tudo, você não pode consertar a porra do passado. Desculpas não se apaga passado, apenas afaga a alma, remenda o buraco que a vileza causa. Desculpa é uma farsa, uma disfarce que a gente usa. Ninguém aprende com erro, a gente só aprende novas formas de errar pra machucar diferente, pra fazer sangrar em outros lugares.

Engulo meu passado junto com o café amargo de todas as manhãs e tento disfarçar os olhos vermelhos. Uso maquiagem para esconder minha real face, aquela que um dia vai acabar machucando alguém e eu não poderei evitar. Minha natureza, nossa natureza é essa, machucar aqueles a quem amamos confiando no amor que eles sentem por nós. A gente erra, pede desculpa, remenda o machucado e erra de novo. O passado só mostra a nossa crueldade. Um dia, a gente acaba tendo que enxergar tudo. Não há saída, só você e seu maldito cérebro, esse cruel torturador e tirano que você não pode lutar contra. Rende-se, resigna-se. Nada mais.

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