A insustentável leveza da felicidade

Há alguns anos li uma frase que me incomodou muito, foi no primeiro romance de Clarice Lispector “Perto do coração selvagem”, a personagem Joana indaga à professora: – E depois de ser feliz, o que a gente faz? Isso me marcou porque a gente nunca faz esse tipo de pergunta, ninguém nunca pensa além da felicidade, nosso objetivo é chegar no pódio, mas e depois? É como se todos nós fossemos personagens de filmes, depois do the end, não há nada. Só conjecturas.

Irremediavelmente meu pensamento remete-se ao eterno retorno de que Milan Kundera falava em seu livro mais famoso, “a insustentável leveza do ser”. A ideia do eterno retorno vem de Nietzsche, que nos diz que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente.

Um mito? Uma loucura de Nietzsche? eu sinceramente não sei. Se pensarmos na felicidade como o pico de uma montanha, ao chegarmos no seu cume, inevitavelmente teremos de descer. Não podemos morar no alto de uma montanha, não teríamos suporte de sobrevivência prolongada, o ar muitas vezes é rarefeito, o terreno não muito plano, logo teríamos necessidades que nos obrigaria a descer. A felicidade é somente um vislumbre da vida. Um lugar que vale a pena chegar, contemplar a paisagem e descer, descer para a vida real, para os dissabores cotidianos.

Então, após cumprirmos a saga de subir a montanha, a gente é feliz e aí a gente é obrigado a descer. Qualquer que seja o motivo, gente sempre desce pra depois recomeçar a nova odisséia da montanha. Fazemos isso inúmeras vezes e somos quase sempre persistentes. Pensar assim nos faz semelhantes a uma garrafa retornável e é assim mesmo. Obviamente que a ideia que Milan Kundera traz do eterno retorno não é nada simplista como expus, mas o princípio básico é o mesmo. Tudo tende a repetir.

A vida, os sorrisos, as lágrimas, os silêncios, a música, o beijo, o sexo, tudo isso faz parte do nosso descer e subir da montanha eterno. A morte. A morte não é uma montanha comum, a morte é vulcão. Poderoso, denso. Um monstro adormecido que a qualquer momento expele suas lavas e nos engole. A felicidade e a morte são irmãs gêmeas não idênticas e muito nos confunde. Pra alguns a morte também é retornável.

Eu nunca sei direito quando subo ou quando desço, sei quando estou no cume e ainda assim as sensações me confundem, o ar rarefeito da montanha me sufoca, deixa minha visão turva, de pensamentos contraditórios e mente difusa.

Aí, eu pulo da montanha e mergulho de cabeça.

Muss es sein?

– Es muss sein.

Anúncios

12 comentários sobre “A insustentável leveza da felicidade

  1. Célia Rodrigues disse:

    Belo texto, minha conclusão: ” a felicidade é apenas um estado de espírito, passageiro, jamais duradouro” , temos “picos” de felicidade durante a nossa existência!Enquanto estivermos “vivendo esse estado”, devemos saboreá-lo ao extremo!

  2. Lara Serpa disse:

    ótimo texto Carol, Já subi essa montanha. Hoje to no meio do caminho… Mas isso é tão bom quanto no cume. Até o caminho anda me satisfazendo.

    Beijos

  3. bom texto Carol, faz bem pensar na felicidade assim, ajuda a enfrentar as dificuldades e resolver os problemas, porque esses são apenas trechos complicados da montanha, é só olhar para o alto e continuar subindo. 😉

    Bjs

  4. Cleber Nascimento disse:

    Mais um excelente texto Carol!
    Já vivi o pico dos momentos que a felicidade proporciona, hoje, busco forças para subir novamente a montanha e sentir a sensação que seu texto descreve com tanta propriedade !
    Parabéns pelo excelente artigo 🙂

Vai, agora é a sua vez de falar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s