A dor de todo mundo

Nunca achamos que o mal nos atingirá. Tudo de ruim só acontece com nosso vizinho, naquele nosso conhecido, no moço da esquina. Assistimos a novela da vida alheia de camarote no conforto do nosso lar: Filhos matando pais, pais matando filhos, pessoas mortas pela estrada, corpos jogados no esgoto, bandidos que levam a dignidade das pessoas, nos roubam carros, dinheiro e nos sobra a vergonha e uma tremenda impotência, No conforto de nossa paz, somos apenas empáticos e na maioria das vezes indiferentes, não por maldade, mas é que a violência está tão banalizada que se tornou corriqueira.

Quando o mal urbano nos acomete sentimos a dor do mundo e de todo mundo, a ira que nos consome é como um veneno letal que não nos mata assim de morte morrida e nem de morte matada. Com o coração batendo, olhos piscando e cabeça funcionando, sentimos o veneno percorrer lentamente pelo nosso corpo. Um veneno paralisante, inquietante que amputa sem anestesia.

Clamamos então por justiça, a mesma que condenou o casal Nardoni e a Richthofen e a tantos outros monstros que a sociedade cria, acolhe e depois os expõe, numa talvez expiação pelos seus pecados, e  porque não, pecados do mundo. Recebemos na justiça o alento e a sensação de vingança, prêmio por tanto sofrimento causado.Mas pena nenhuma – justa ou não – diminui a dor, muito menos traz a paz, os sorrisos, as companhias, a nossa dignidade, nossa segurança, nosso prazer de ir e vir.

Na boca, o gosto amargo perdura; na alma, uma ferida eternamente exposta. Enquanto isso, de tempos em tempos nos enchem os olhos com mais um ato de uma peça sem final feliz e nós, compramos a história como se ela fosse nossa, até que outra a substitua. Mudam-se os atores, o roteiro, mas o enredo é o mesmo. Quanto mais dor melhor, quanto mais sangue, mais ibope porque o espetáculo não pode parar.

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2 comentários sobre “A dor de todo mundo

  1. Cleber Nascimento disse:

    Excelente texto Carolina!
    Retrata exatamente o que vivemos atualmente.
    Infelizmente, esses são e serão os filhos criados pelo novo modelo de educação, repasse de valores e respeito pelo próximo!
    Beijos

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