De existir, tão somente

A gente abre os olhos para mais um dia, senta na varanda enquanto termina a xícara de café. Ninguém fala nada, compartilhamos somente o mesmo oxigênio. Parecemos aquelas cenas de filmes que mostram o casal cada um em seu cenário fazendo exatamente as coisas, e ali estava a gente, cada um olhando diferente para a mesma vida que ardia lá embaixo. Tudo acontece numa cadência diferente, o tempo aqui escorre devagar, como em câmera lenta, deixando as coisas suspensas e a gente flutuando dentro do dia.

Me prepara um drink enquanto eu tomo banho e deixa a música tocando lá na sala. Enxuga meus cabelos, me abraça e sente meu coração pulsando obediente enquanto você segura meus seios. Me come aqui em pé, com as mãos apoiadas na pia e olha nos meus olhos pelo reflexo do espelho. Me come até o corpo secar, até alguém gozar, enquanto a gente aguentar, até alguém chorar. Não fala nada, meu coração em disritmia, o teu batendo forte nas minhas costas, me aperta forte e fica assim.

A música já acabou, o mundo lentamente volta a funcionar e o domingo vai passando assim sem ruga, sem traumas, como se fosse mais um dia de férias. Nada tem pressa, a gente come os restos de pizza de ontem aqui esparramados no tapete da sala. Mais uma taça do vinho caro que a gente não espera data importante pra abrir. Nada de extraordinário nos assalta e as coisas permanecem assim normais, como se a rotina dos dias tornasse tudo banal.

O silêncio da casa é gritante, pulsante e lateja dentro da gente. Não há o que dizer e nem precisa, ninguém tem necessidade de irromper o mundo com palavras. O silêncio das almas não incomodam, a gente conversa pelos olhos, pelos sorrisos e pelos teus dedos que passeiam pelo meu corpo, pelas minhas unhas vermelhas em contraste com a tua pele excessivamente branca, pela minha boca que mora no teu peito, pelos teus braços que me apertam como um nó. Nós tão nossos.

O sol vai morrendo no horizonte e o céu vai ganhando matizes em tons alaranjados e toques de roxo ardente, acendo um cigarro e enquanto Ella canta baixinho na sala, sorrio satisfeita com o dia que se veste de noite e te vejo sorrindo também como se pudesse ler meus pensamentos. Me puxa pra cama de novo, o domingo está acabando, a vida aqui na cama é urgente, eu sou tua como sempre fui, me deixa assim pela vida inteira. Amanhã não saberemos, amanhã a vida é real e vai nos engolir. Beija a minha boca, esquece os vizinhos, rasga a minha roupa, pode chamar de puta se quiser, chama daquilo que eu parecer. Eu te olho, te aperto e mordo tua boca, tua intensidade é a força das minhas unhas nas tuas costas. Amanhã a gente pensa.

O Sol expulsa a noite. Já é outro dia.

“He’ll look at me and smile,
I’ll understand
And in a little while he’ll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won’t say a word”

(The man I love – Ella Fitzgerald)

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8 comentários sobre “De existir, tão somente

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