If only

Tenho tido sonhos repetidos e o dessa noite me impressionou bastante, até mais do que deveria, chegando mesmo a me incomodar. A mesma casa, detalhes diferentes, uma piscina suja e aquele ar comum, um deja vu. Tudo conhecido. Por dentro, uma mudança tênue, mas habitual. Eu tenho medo desse sonho. Meu mundo real é mais seguro, talvez por ser de verdade, de olhos abertos. Uma eterna contradição. Os meus sonhos costumavam ser mais seguros, um lugar imaginado e perfeito que se desmanchava ao abrir os olhos. Meu medo agora é de fechá-los.

Acabo acordando no meio da noite com a sensação de vida passando e tempo escorrendo pelas minhas mãos. Me vejo deixando tanta coisa pra trás, não saio do lugar, mas tudo está ficando estranhamente pra trás e ficando em segundo plano. Me pergunto frequentemente, qual seria o primeiro plano? Respondo honestamente que não sei. Mas quando chegar lá nesse tal lugar o qual persigo, quem estará me esperando? Ninguém me espera no pódio.

Ironicamente toca aqui “Somewhere only we know”  enquanto escrevo. Que lugar seria esse que nós sabemos, se eu nem sei quem somos nós? Sei quem eu sou e, às vezes,  nem isso. Tanta força por nada, tanta palavra gasta, tanto tempo desperdiçado. Virei a eterna ironia, aquilo que poderia ter sido, meu eterno SE. If only.

E aí veio outro sonho, um dentro do outro. Sonhei que alguém entrava no meu quarto no meio da noite, dormia comigo e quando eu acordava tudo não tinha passado de um sonho e aí o outro começava. O pesadelo, mundo acabando. Estranho mundo comum. Acabei percebendo que eu sinto falta é da companhia, de ter alguém por perto pra compartilhar, alguém que me entenda, que fale a minha língua, que ria das piadas que eu fizer e que não precise de muitas palavras pra entender o que eu digo. Isso faz parte do deixar pra trás. Caminhar sozinha é um caminho covarde pra quem não quer mudar, ceder e baixar a guarda, coisa de quem prefere sucumbir com medo de provar e gostar. Tem medo de perder a segurança do seu mundo. If only.

Amanhã talvez, eu ache isso tudo fruto dessa grande personagem Carolina de Chico Buarque. O papel sempre me coube tão bem e a vida passa na janela, a diferença é que agora eu vejo. Talvez eu seja isso tudo e sinta tudo o que eu escrevi, talvez não sinta nada e seja só uma verborragia da madrugada pós “tributo a legião urbana” que me remeteu ao passado, talvez tenha sido a consciência dos 30 anos que sempre assusta e sempre me empurra pra uma vida nova, novas vontades e experiências, como nas promessas de início de ano, que eu nunca cumpro. Permaneço assim, na minha eterna incoerência, infinita ironia.

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2 comentários sobre “If only

  1. Lara Serpa disse:

    Texto honesto Carol, eu entendo e bem o que vc está querendo dizer, tenho um texto pronto dizendo quase a mesma coisa. Isso é a urgência, é a vontade, aquela coisa que não queremos esperar e não temos mesmo tempo pra espera, a vida toda é urgente.

    A menina de Chico Buarque não via, vc vê, já é um bom passo pra sair do se.

    Beijos

  2. Lendo o teu texto, é como se, embalado por ele, fossemos transportados para o interior de eu mais profundo, mais emblemático, mais enigmático. Contudo, ao avançarmos na leitura, percebemos que nada há de emblemático, de enigmático, porém, há na sua profundidade, o encanto que, por mais paradoxal que possa parecer, não confundi, pelo contrário, esclarece muito não de ti, Carolina, que o escreveu, mas de nós, que o lemos. Lendo teu texto, me senti caminhando na areia de uma praia deserta, a areia morna sob meus pés e a lua, inteira, iluminando meus pensamentos que divagam.

    Adorei… Embora permaneçamos todos, assim, em eterna incoerência e infinita ironia.

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