Encantamento

O salão estava cheio de gente, com cheiro de suor e cerveja derramada. Fiquei feliz quando ele me convidou para dar uma volta. Lá fora fazia um tempo sem vento. Conversamos ao longo de nossa lenta caminhada. Passado algum tempo paramos em uma clareira circundada por um lago

Conversamos até altas horas da noite. Nenhum de nós dois mencionou o seu passado, senti que havia coisas de que ele preferia não falar, e por seu jeito de evitar me fazer certas perguntas, creio que ele achou o mesmo. Assim, falamos de nós mesmos, de fantasias agradáveis e coisas impossíveis.

Meus olhos voltavam-se sempre para ele. Ele ficou sentado ao meu lado abraçando os joelhos. Tinha a pele mais luminosa que a lua, os olhos mais vastos que o céu, mais profundos que a água e mais escuros que a noite. Aos poucos comecei a me dar conta que eu não desgrudava os olhos dele, fitando sem palavras, por um tempo incalculável. Perdida em meus pensamentos, perdida na visão dele.

Tive vontade de segurar suas mãos. Tive vontade de roçar o seu rosto com a ponta dos dedos, sentir sua barba por fazer. Tive vontade de dizer que ele era a primeira coisa linda que eu via em três anos. Que a visão dele bocejando ou expirando a fumaça do cigarro lentamente era o bastante para me deixar sem fôlego. Que, em certos momentos eu perdia o sentido de suas palavras no doce flauteio de sua voz.

Naquele segundo sem fôlego, quase lhe fiz um pedido. Senti-o fervilhar em meu peito. Lembro-me de ter respirado fundo e em seguida hesitado – o que eu poderia dizer? Venha comigo? fique comigo? Não.

Uma certeza súbita apertou meu o peito como um punho frio. O que eu poderia pedir-lhe? O que eu tinha para oferecer? Nada. Qualquer coisa soaria tola, uma brincadeira de criança.

Fechei a boa e contemplei a água, ele fez o mesmo. Pude sentir seu calor. Ele recendia a poeira de estrada, mel e àquele cheiro que paira no ar segundos antes de uma chuva de verão.

Nenhum de nós falou. Fechei os olhos. A proximidade dela era a coisa mais doce e mais pungente que a minha vida já conhecera.

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