É hora de discutir, Brasil

Essa semana o Brasil deu um passo largo numa das questões mais difíceis que temos por aqui. A questão da descriminalização do aborto de anencéfalos. O STF (Supremo Tribunal Federal) julgou e aprovou o aborto nesses casos. Um avanço sem dúvida, mas também um ponto de partida para outras questões de igual importância para a nossa sociedade.

Eu sou a favor do aborto em gestações que trazem riscos à mulher, tanto riscos físicos quanto emocionais, como no caso de feto com anencefalia e estupro (que aliás, o Código Penal já é favorável). Mas eu também acho que a mulher deve ter autonomia sobre o próprio corpo, cabendo só a ela o desejo de manter uma gestação de risco e em casos de anencefalia, mas também ser penalizada gravemente nos casos de aborto deliberadamente.

Mas a relevância do assunto toca em questões que vão além da descriminalização e da discussão entre o Estado e a Igreja (em especial a católica). A discussão e a decisão levada ao STF mostra que o Brasil está disposto a discutir sobre assuntos até então tratados de forma errada por aqui, como a liberação das drogas. Estar disposto a discutir é diferente de estar preparado. Somos uma sociedade brasileira laica, mas guardamos raízes católicas bastante fortes e isso ainda impede que as questões sejam discutidas de forma racional e imparcial.

Eu sou a favor da liberação das drogas, desde que haja também um acompanhamento psicológico e médico eficaz ao usuário. O usuário de drogas, o dependente químico ( aí entram os medicamentos controlados, o cigarro comum e o álcool) é um indivíduo doente que por algum problema maior ou distúrbio tornou-se mais suscetível ao vício. Este deve ter um cuidado especial e também descriminalizado. O criminoso é o traficante que rouba a vida das pessoas, que mata impiedosamente, que destrói famílias, que suborna, que compra policiais (tão criminosos quanto os traficantes).

Acredito que a liberação das drogas e a descriminalização do usuário restringirá a atuação do traficante. Em 2009 a Argentina decidiu descriminalizar o usuário de maconha, por lá, o usuário pode usar livremente e cultivar a erva para consumo próprio. Se isto acontecesse no Brasil, o narcotráfico perderia muito o seu “mercado” e quem ganha é toda a sociedade brasileira em especial, cidades com alto índice de violência como Rio de Janeiro e São Paulo. Reitero o que eu disse, sou favorável à liberação DESDE QUE haja um acompanhamento médico e psicológico eficaz ao usuário, que é uma vítima do seu vício.

Em alguns Estados americanos, a maconha é usada com fins terapeuticos para doenças como o câncer e a aids no controle da dor e em casos de esclerose muscular. Em Amsterdam na Holanda, a maconha pode ser consumida livremente em seus coffee shops e lá a incidência de violência é baixa e o tráfico de drogas é praticamente nula.

Acredito que a forma como enxergam-se as drogas é mais uma questão educacional do que propriamente social. O vício atinge a todas as classes sem respeitar conta bancária e nível de intelectualidade. A educação não é somente aquela que recebemos nas escolas e atestamos com títulos universitários, mas aquela que recebemos em casa, com preceitos morais e acima de tudo, liberdade de escolha. Um cidadão instruído a pensar livremente e agir conforme a sua consciência.

Espero que nós, a sociedade brasileira possamos discutir mais livremente as questões relevantes que não são tratadas de forma séria e racional, sem interferência da igreja ou de qualquer outro preceito. Precisamos discutir de forma imparcial e desinteressada, o que não parece acontecer atualmente, parece que nós estamos mais interessados em defender o criminoso do que o cidadão de bem, livre e pensante.

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8 comentários sobre “É hora de discutir, Brasil

  1. No caso das drogas, penso exatamente como vc. Sem tirar, nem por.
    Com relação ao aborto, acompanhei o julgamento no STF e, penso o seguinte:
    O aborto deve ser autorizado nos casos de anencefalia ou qq outro q traga graves consequencias para o feto/futuro bebe(alem dos demais casos ja autorizados).
    Nos outros casos, sou totalmente contra. Adeus responsabilidades(para alguns, adeus preservativos), a vida vai se tornar tao banal a ponto de se brincar com ela, pois, qqr problema, eh so abortar.

    • Carol Machado disse:

      Pois é Roger, também sou contra o aborto deliberado, acho que se deve dar liberdade e autonomia à mulher nos casos de assumir uma gravidez de risco, e ser penalizada nos demais casos.

  2. Clayton Araújo disse:

    Boa tarde Carol, acredito e concordo com você literalmente, o consumo de Drogas liberada automaticamente irá reduzir a quase zero o tráfico e por isso acredito que tenha de ser liberado, o cigarro e o alcool são liberados e o tráfico é quase nulo(claro que existe), não uso e nunca usei “drogas” apesar de ser fumante e depender de leis que aumentam o preço a quase todo ano, mais isso foi um caminho pelo qual decidi fazer parte. Quanto ao aborto, se tratando de meninas e/ou mulheres que são estupradas nem comento que tem de ser feito o aborto caso as mesmas o querem, quanto ao julgamento dessa semana acredito que também tenha de ser autorizado esquecendo as questões politicas/religiosas pois esses mesmos que não o querem e são contras não passaram por isso, uma questão de várias opiniões, mais a minha é essa. bjos e ótimo texto.

    • Carol Machado disse:

      Sim Clayton, o depende quimico é uma vítima do seu vício.

      E sobre a questão do aborto, vivemos em um Estado Laico, a religião não deve (ou não deveria) ter peso nas decisões. Mas o Brasil vai avançando, a discussão aberta, já é um grande passo.

      Beijo

  3. Quanto a recente decisão do STF em tornar possível a interrupção de gravidez de feto anencéfalo, me parece mesmo uma questão de bom senso, haja vista não fazer sentido algum penalizar alguém que não deseja manter a gestação de um feto praticamente sem vida. Mesmo por razões científicas e jurídicas. Ocorre que de um modo geral, entenderam tal decisão no sentido de obrigatoriedade de interrupção, não possibilidade, é aí onde reside o erro. Essa é uma decisão por quem é diretamente responsável pela concepção do feto, terceiros não devem e não podem interferir. Portanto, quem for contra a decisão que me perdoe, mas é de uma hipocrisia a ser perder no horizonte. Quando à maconha, em meio acadêmico não há mais repressão no uso há bastante tempo, não vejo maiores problemas na liberação, porém penso que não seja esse o momento, deve haver antes toda uma preparação psicossocial, deve haver estrutura suficiente, e sobretudo uma reformulação do imaginário coletivo social da interferência da maconha.

    • Carol Machado disse:

      Jessica, a descriminalização do aborto com anencéfalos não quer dizer que a mulher seja obrigada a abortar, mas caberá somente a ela esta decisão e se esta for de abortar, que se faça com respaldo jurídico.

      Quanto a liberação das drogas, concordo que não seja o momento, é preciso antes haver uma discussão séria e como vc mesma disse, uma preparação psicossocial. Mas não concordo com você quanto ao meio acadêmico não haver repressão. Há sim e muito.

      De qualquer forma, abrir espaço a discussão como esta que tivemos nessa semana, é de suma importância para o avanço de nossa sociedade.

      Obrigada pelo comentário.

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