Só hoje

Há algumas noites não durmo direito, minha avó fraturou o fêmur e eu revezo com a minha prima a árdua tarefa de acompanhante, Um dia fico de dia e no outro fico de noite, sempre prefiro ficar no turno da noite por achar que as horas são mais tranquilas, mesmo sabendo que durante o dia o movimento do hospital faz o dia voar.

Escolho o turno da noite pelo comodismo, geralmente a minha avó já está alimentada, de banho tomado e fraldas trocadas. Minha função normalmente é virá-la na cama, conversar, dar água no canudinho e esperar que ela durma bem e calma o restante da noite.

Geralmente começo meu plantão juntamente com os médicos, enfermeiros e demais funcionários, então das 19:00 às 20:30 hrs, o movimento é intenso, falatório, gente rindo, passando para lá e para cá, após as 21:30 o silêncio começa a se fazer presente, sendo interrompido somente por algum enfermeiro passando, algum doente perambulando pelo corredor e dentro disso tudo, geralmente leio um livro, escrevo alguma coisa ou fico mesmo conversando com as outras mulheres internadas na mesma ala.

Lá pela meia noite meu sono começa a bater, mais pelo tédio do que pelo cansaço, me ajeito numa cadeirinha e tento dormir. Sono leve e rápido porque toda hora algum enfermeiro entra pra ver a medicação, soro ou simplesmente olhar os pacientes. As 6 da manhã estou de pé, esperando ansiosamente por 7:00 quando minha prima me substituirá.

Assim foi a minha rotina nesses últimos dias, tirando alguns caprichos da minha avó o plantão segue tranquilo com poucas surpresas. Tenho notado que para ela, os dias se movem diferente e ela fica estressada, implicante e urgente. Tudo tem que ser na hora em que ela pede e se algo é negado, ela faz pirraça e se recusa até de tomar remédio.

Hoje ela teve alta e em casa, a coisa tende a ser pior, todas as atenções têm que ser voltadas para ela e a urgência de seus desejos triplica. Fico pensando em como a velhice os torna carentes e quando já viveram tudo a seu tempo, os seus desejos precisam ser sanados imediatamente,são insensatos, é como se tivessem pressa, quisessem aproveitar cada momento que restam. A gente enquanto é novo, vive a conta gotas, um dia de cada vez, tem paciência de esperar o bom momento. Quem será que tem razão. Os velhos ou os novos?

Talvez os dois, viver como se não houvesse amanhã é frase feita, mas é difícil seguir à risca, viver devagar, estudando os movimentos como num jogo de xadrez nos ajuda a conservar a paz. Mas hoje, acho que sábio é quem vive na insensatez dos dias, quer tudo no hoje porque o amanhã talvez nunca venha.

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